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Molloy
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"Estou no quarto de minha mãe. Sou eu que moro lá agora. Não sei como cheguei lá. Numa ambulância talvez, num veículo qualquer certamente. Me ajudaram. Sozinho não teria chegado. Esse homem que vem toda semana, é talvez graças a ele que estou aqui. Ele diz que não. Me dá dinheiro e leva as folhas. Tantas folhas, tanto dinheiro. Sim, trabalho agora, um pouco como antigamente, só que não sei mais trabalhar. Isto não tem importância, ao que parece. Eu, eu gostaria agora de falar das coisas que me restam, me despedir, terminar de morrer. Eles não querem. Sim, eles são muitos, ao que parece. Mas é sempre o mesmo que vem. Fará isso mais tarde, ele diz. Bom. Não tenho mais muita vontade, vejam bem. Quando vem buscar as folhas novas, traz de volta as da semana anterior. Estão marcadas com sinais que não compreendo. Em todo caso, não releio. Quando não faço nada, não me dá nada, me repreende. No entanto, não trabalho por dinheiro. Por que então? Não sei. Não sei grande coisa, francamente. A morte de minha mãe, por exemplo. Já estava morta quando cheguei? Ou só morreu mais tarde? Quero dizer, morta de enterrar. Não sei. Talvez não a tenham enterrado ainda. Em todo caso, seu quarto agora é meu. Durmo na sua cama. Faço no seu vaso. Tomei o seu lugar. Devo me parecer com ela cada vez mais. Só me falta um filho. Tenho um em algum lugar, talvez. Mas não acredito. Estaria velho agora, quase tanto quanto eu. Era uma empregadinha. Não era o verdadeiro amor. O verdadeiro amor foi com outra. Vocês vão ver. Não é que esqueci o nome dela de novo. Às vezes me parece até que conheci meu filho, que cuidei dele. Depois digo a mim mesmo que é impossível. É impossível que tenha conseguido cuidar de alguém. Esqueci a ortografia também, e a metade das palavras. Isto não tem importância, ao que parece. Pois é. É um sujeito engraçado, esse que vem me ver. Todos os domingos ele vem, ao que parece. Não está livre nos outros dias. Está sempre com sede. Foi ele que me disse que eu tinha começado mal, que era preciso começar de outro jeito. Eu, pois é. Comecei do começo, imaginem, como um velho idiota. Aqui está meu começo, o meu. Eles vão mantê-lo assim mesmo, se entendi direito. Eu me dei trabalho. Aqui está. Me deu muito trabalho. Era o começo, vocês sabem. Enquanto agora é quase o fim. É melhor, o que faço agora? Não sei. Não se trata disso. Aqui está meu começo, o meu. Deve significar alguma coisa, já que eles o mantêm. Aqui está."
Trecho
de "Molloy", de
Samuel Beckett, Editora Globo, 2008
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one, two,
three, four, five, six!
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"אני
זה
ששכן
בתוך
קין!
Ego sum unus quisnam habitat Nero! Mιά
φορά
κατοίκησε
μέσα
σε
Ιούδας!
Ich war mit Legion! לעילב
אני!
And I am Lucifer, the devil in the
flesh!" [1]
[1]
No
trecho acima, cada um dos demônios
identifica-se em um idioma
particular: o primeiro em hebraico,
o segundo em latim, o terceiro em
grego, o quarto em alemão, o quinto
novamente em hebraico e o sexto, em
inglês. A tradução, portanto, é
a seguinte: "Eu sou aquele que
residiu em Caim! Eu sou aquele que
residiu em Nero! Eu residi em Judas!
Eu estive com a Legião
(referindo-se a Hitler)! Eu sou
Bliyaal! E eu sou Lúcifer, o diabo
em carne e osso!
Fala
de Emily Rose, interpretada por
Jennifer Carpenter, em
"The Exorcism of Emily Rose",
2005, Direção de Scott Derrickson.
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Cadernos Negros
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Poema da Comunhão da Carne
Querer-te como rima preciosa uma pedra esculpida um ritual de amor
e arte em negrura colorida. Sim
querer-te o corpo como um templo
e cultuar-te -- assim sagrada --
a salgada e rubra hóstia da vagina
Márcio
Barbosa
in Cadernos Negros 11, página 45
¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤
Exu
Lábios vermelhos
Muito vermelhos
Acesos e acesos e haciendo-me entrar
-- vem vem me ver por dentro
E eu vou à fenda -- acesso labiríntico a chamar
A brasa -- chama rubra e corpo negro
Abílio Ferreira
in Cadernos Negros 13, página
63
Poemas citados no texto crítico
"Poesia Erótica nos Cadernos
Negros", de Luiz Silva (Cuti). Caso você queira saber mais a respeito da proposta "Cadernos Negros",
visite o site da
Quilombhoje!
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A
Terra Desolada
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Terra Desolada (The Waste Land),
de Eliot, escrito em 1922 é, na
minha opinião, ao lado de Le
Bateau Ivre (O Barco Ébrio),
de Rimbaud, um dos maiores poemas
já escritos. O fragmento no final
deste post é a primeira parte da
obra e foi publicado em ''T.S. Eliot - Poesia'',
da Nova Fronteira.
Em várias das vezes em que
conversei a respeito disso com
alguns amigos e dei essa minha mesma
opinião acima, ouvi que a linguagem
de Terra Desolada é árida demais
pra ser considerada agradável ao
palato de um leitor mais sensível e
que eu estava viajando. E eu poderia
até concordar com eles. Dizer qual
poema é genial e qual não é, qual
merece estar entre os maiores já
escritos e qual não merece, é
também uma forma subjetiva de
caracterizá-lo, eu diria que talvez
seja até mesmo uma forma imbecil,
pois no fundo, não acrescenta nada
a nada, uma vez que uma lista desse
tipo só tem valor legítimo pra
quem a escreve. Por outro lado,
classificar sua linguagem como
árida, complexa, direta, agressiva
ou suave aos ouvidos quando
recitado, já me parece ser de mais
fácil verificação, por motivos
óbvios.
Mas paradoxalmente, é exatamente
essa aridez que me envolve. Eliot me
fisga justamente por essa
adequação onírica da poesia a uma
temática que por si só já é o
próprio fim dos tempos e pela forma
angulosa que escolheu para contar
sua história. Certas coisas servem
pra ser compreendidas, outras para
serem sentidas e embora existam
aquelas que nos apresentam as duas
possibilidades, as mesmas sempre
poderão ser excludentes: uma mulher
pode ser bonita sem necessariamente
ser inteligente (ou vice-versa) mas
não por isso, deixar de ser
admirável.
Pois é, não sei se é a hora, mas
tudo o que eu consigo concluir neste
momento é que realmente eu sou um
tanto quanto bizarro na maneira como
vejo as coisas. Sei lá, vale mais a
pena você ler e tirar as suas
próprias conclusões, porque as dos
outros, meu chapa, nunca lhe serão
úteis, pode apostar seu rabo nisso,
eu sempre apostei o meu e até agora
nunca perdi.
|
A
Terra Desolada
1.
O enterro dos mortos
Abril
é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da
primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada,
nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda
restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do
Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos
pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias de
Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora
conversamos.
Big gar keine Russin, stamm' aus
Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do
arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear
de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta
abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te
sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o
sul durante o inverno.
Que
raízes são essas que se arraigam,
que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do
homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas,
porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas,
batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais
te abrigam, nem te consola o canto
dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na
pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha
escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha
escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de
ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu
encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num
punhado de pó.
Frisch
weht er Wind
Der Heimat zu
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?
''Um
ano faz agora que os primeiros
jacintos me deste;
Chamavam-me a menina dos
jacintos."
-- Mas ao voltarmos, tarde, do
Jardim dos Jacintos,
Teus braços cheios de jacintos e
teus cabelos úmidos, não pude
Falar, e meus olhos se enevoaram, eu
não sabia
Se vivo ou morto estava, e tudo
ignorava
Perplexo ante o coração da luz, o
silêncio.
Oed' und leer das Meer.
Madame
Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda
assim,
É conhecida como a mulher mais sábia
da Europa,
Com seu trêfego baralho. Esta aqui,
disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício
Afogado.
(Estas são as pérolas que foram
seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos
Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões,
e aqui a Roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e
esta carta,
Que em branco vês, é algo que ele
às costas leva,
Mas que a mim proibiram-me de ver. Não
acho
O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que em círculos
perambulam.
Obrigada. Se encontrares, querido, a
Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o
horóscopo:
Todo o cuidado é pouco nestes dias.
Cidade
irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de
inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de
Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos
destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros
exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante
de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King
William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth
marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona
badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz
parar, aos gritos: "Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras
de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado
em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores
este ano?
Ou foi a imprevista geada que o
perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse
amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra
vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! -- mon
semblable --, mon frère
T.
S. Eliot
Traduzido
por Ivan Junqueira
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Um dia na vida
de Jack
Ontem eu li o livro "Variedades da
Experiência Científica: uma visão
pessoal da busca por Deus", que é
uma coletânea das transcrições das
apresentações de Carl Sagan nas
Palestras Gifford, na Universidade
de Glasgow, Escócia, em 1985, cujo
tema fora teologia natural. São cerca de
300 páginas bastante interessantes,
dentro do estilo agradável de um dos
maiores divulgadores científicos do nosso
tempo. O livro é uma grande oportunidade
de conhecer a forma como a mente de um
ateu informado e cientificamente
alfabetizado trabalha quando se trata da
teologia.
Também assisti ao filme "Batman
- O Cavaleiro das Trevas". Gostei
bastante do roteiro e da forma como foi
contextualizada a história, onde parece
ter havido uma preocupação em manter
tudo dentro de uma realidade provável.
Falar a respeito da atuação de Ledger no
papel de Curinga (não gosto do sinônimo
Coringa, com "o" no lugar do
"u") seria chover no molhado,
mas eu reforço a idéia de que a loucura
lógica e psicopata da personagem torna o
transtornado vilão de humor-negro o
elemento principal da obra, colocando o
próprio Batman como coadjuvante, na
medida em que todo o enredo se constrói a
partir de suas ações, intenções e
manipulações. Em outras palavras, não
acredito ser errado afirmar que o Curinga
do atual Batman é o Bin Laden americano,
sintetizanndo tanto o medo quanto a visão
particular da América a respeito do
terrorismo. O time de atores em geral
também dispensa comentários. A única
coisa que na minha opinião poderia ter
sido melhor é a ambientação: a Gothan
City do filme está longe do sombrio
cenário idealizado pelos quadrinhos, mas
acho que a semelhança
explícita com a cidade de Manhattam
também é necessária para a elaboração
do contexto subliminar que remete
diretamente a destruição orquestrada
pelo Curinga ao caos dos atentados de 11
de Setembro e ao terror em linhas mais
gerais.
Pra terminar, no final da noite, assisti
na MTV ao primeiro episódio de "A
Shot of Love", um reality show onde a
gostosíssima Tila
Tequila busca um namorado -- ou uma
namorada -- já que a safada é bissexual
declarada. Como qualquer outro reality
show, esse também não traz nada de
útil, exceto pelos trajes ínfimos da
Tila e das molecagens dos participantes,
em particular os homens, que literalmente
saem na porrada, enchem a cara até passar
mal, xingam-se e humilham-se uns aos
outros para disputar o coração da
boazuda descendente de vienamitas.
Pois é, isso tudo é o que faz um homem
desocupado dentro de um período de 24
horas.
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Gerben Mulder
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Nude
on the beach, 2008
Gerben Mulder
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Girl
with cast, 2008
Gerben Mulder
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O artista holandês Gerben Mulder, terá
sua obra exposta, a partir de hoje, na galeria Fortes Vilaça, em
Sampa. Se você é como eu e também gosta
de arte, aí vão os links pra poder se
informar mais:
http://www.gerbenmulder.com
http://www.fortesvilaca.com.br
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Ezra Pound
|
E
assim em Nínive
"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura."
"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul."
"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."
Ezra
Pound
traduzido
por Augusto de Campos
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Haroldo de
Campos
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Se
se
nasce
morre nasce
morre nasce morre
renasce remorre renasce
remorre renasce
remorre
re
re
desnasce
desmorre desnasce
desmorre desenasce desemorre
nascemorrenasce
morrenasce
morre
se
Haroldo
de Campos
Haroldo
de Campos: taí um sujeito que eu
sempre admirei. |
|
Versos para
uma descida
Versos
para uma descida
O sangue coagulado é bom
para os vermes nos aterros
e o sexo dos deuses louros
Os indigentes, nus enterrados
e a carne podre dos animais,
o esperma no cu das beatas,
os padres e os jovens currados,
nos tornam todos canibais
A doença que o ar espreita
em pulmões tuberculosos,
em lixeiras, caixotes e latas
faz do dia-a-dia uma seita,
e um tumor nos corpos calosos
Onde a morte se faz arte
e o caos se faz atitude,
os ratos, as moscas e as baratas
são testemunhas e são parte
dessa mesma decrepitude
Pois a esperança é o som
do berro dos bezerros
levados aos matadouros
Jack Sk.
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Sutra de um olho fechado
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o yogin
Ensimesmado, o feto de
pedra pra sempre curvado em reverência ao presente,
expõem sua força, na dor ausente e eterna comborça, conjugalmente
brilha
por dentro e externa o epicentro viripotente de um terremoto confitente.
Que homem é
aquele?
E se Shiva é por ele,
quem será contra ele?
Jack Sk.
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Rituais de
Canibalismo no Brasil
Como
eram os rituais de canibalismo dos índios
brasileiros?
Carne humana era bem
mais que um petisco para os antropófagos
brasileiros. O canibalismo, na cultura
desses povos, envolvia cerimônias que
evocavam o sobrenatural. "Eles
acreditavam que o indivíduo ganha força
pela assimilação de outros poderosos e
perigosos, sejam guerreiros inimigos,
sejam parentes mortos", afirma o
historiador John Monteiro, da Unicamp.
Os inimigos mais
poderosos que essas populações tinham
eram os portugueses. Os lusos se tornaram
o prato favorito da taba, o que salvou o
aventureiro Hans Staden de arder no moquém.
Por ser alemão, Staden foi poupado pelos
Tupinambás que o capturaram em Ubatuba
(litoral de São Paulo), em 1549.
Prisioneiro dos índios, ele presenciou
rituais antropofágicos. Seu relato -
ilustrado pelo contemporâneo belga Théodore
de Bry - é o mais detalhado já feito
sobre os canibais brasileiros.
Não se sabe exatamente
quantos grupos indígenas praticavam a
antropofagia. O hábito durou até o século
17, quando a catequização acabou com ele
nos territórios controlados pelos
colonizadores. "Mas a lógica
antropofágica permaneceu forte, inclusive
na forma pela qual os índios assimilaram
os rituais católicos, que incluem a
ingestão do 'sangue' e do 'corpo de
Cristo", diz John. Hoje, só os ianomâmis
conservam o hábito de comer cinzas de cadáver,
como forma de homenagear um amigo morto.
Como os Tupinambás preparavam os prisioneiros
para o banquete em que seriam o prato principal,
segundo relato de Hans Staden:

No ritual tupinambá, a vítima nunca era
morta na mesma hora que chegava à aldeia.
A preparação para sua degustação podia
levar dias, até meses. Na chegada, o
inimigo era levado para uma cabana só com
mulheres e crianças. Elas o agrediam (1)
e cantavam canções de vingança. Depois,
penas cinzentas eram coladas ao seu corpo
e suas sobrancelhas eram raspadas (2).
Amarrado no centro da aldeia (3),
ele tinha à sua volta uma roda com todos
os índios, que cantavam e dançavam por
horas. A partir daí, o prisioneiro era
tratado como rei. Davam-lhe uma mulher
para servi-lo. Se ela tivesse um filho
dessa relação, os índios o criariam até
a idade adulta - para então dar-lhe o
mesmo destino do pai. A tribo convidava
amigos de outras aldeias para participar
do banquete. O ritual em si começava
quando as vasilhas estavam cheias de urna
beberagem à base de raízes fortes e
todos os convivas estavam presentes. O
prisioneiro participava da farra da taba,
que atravessava a noite com danças e
bebida farta. Enquanto isso, em uma das
cabanas, era pendurado o tacape que daria
o golpe fatal no pobre coitado.

No dia seguinte, nada de curtir a ressaca
na rede: os índios construíam uma cabana
só para o inimigo morrer. Lá, ele
passaria a noite bem vigiado. De
madrugada, os algozes entravam na cabana
para cantar e dançar em volta do
prisioneiro até o nascer do Sol. Então,
eles derrubavam a cabana e faziam uma
fogueira a dois passos dele. Todos se
pintavam com uma tinta cinza. O cacique
pegava o tacape (1) e golpeava o
prisioneiro na nuca. As mulheres levavam o
morto para o fogo, raspavam-lhe toda a
pele (2) e tapavam-lhe o ânus com
um pau (3), para que nada escapasse
por ali.

Depois da raspagem, um dos homens da tribo
fazia as vezes de açougueiro: cortava as
pernas do defunto acima dos joelhos (1)
e os braços rente ao tronco. Chegavam,
então, quatro que mulheres que pegavam um
pedaço cada e corriam com eles em volta
das cabanas, cantando e gritando – era o
ponto alto da festa, quando toda a tribo
estava em êxtase. Então chegava a hora
de assar a carne e reparti-la entre os
convidados. Os miúdos, assim como a cabeça,
eram dados às mulheres, que preparavam
com eles uma sopa (2), servida só
a elas e às crianças.
Fonte:
Revista Super Interessante
Autores:
Marcos Nogueira e Nina Weingrill
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Criatividade
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Uma vez amei
Uma vez amei, julguei que me amariam
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão — Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.
Alberto Caeiro
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Poesia
encontrada no blog
da Poetriz,
que vale a visita pela excelente
coletânea
de textos, poemas e diálogos.
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Minha
Luta
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"A capacidade de compreensão do povo é muito limitada, mas, em compensação, a capacidade de esquecer é grande. Assim sendo, a propaganda deve-se restringir a poucos pontos. E esses deverão ser valorizados como estribilhos, até que o último indivíduo consiga saber exatamente o que representa esse estribilho. Sacrificando esse princípio em favor da variedade, provoca-se uma atividade dispersiva, pois a multidão não consegue nem digerir nem guardar o assunto tratado. O resultado é uma diminuição de eficiência e
conseqüentemente o esquecimento por parte das massas."
Mein
Kampf, de Adolf Hitler
Primeira Parte - Cap. VI - A Propaganda da Guerra
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100% Americano
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“O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo
um padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos
'mocassins' que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.
Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu
breakfast, ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.
De caminho para o
breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu
breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm
waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de
maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.
Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano.”
in
O homem: Uma introdução à
antropologia, de Ralph Linton,
Livraria Martins Editora, 1959. Citado em
Sociedade: Uma introdução à
sociologia, de Ely Chinoi, Editora Cultrix,
Páginas 162 e 163
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3
poemas de Paulo Leminsky
|
sem
título
este planeta, às vezes, cansa,
almas pretas com suas caras brancas
suas noites de briga braba,
sujas tardes de água mansa,
minutos de luz e pavor
casa cheia de doce,
ondas tinindo de dor,
acabou-se o que era amargo,
pisar este planeta
como quem esmaga uma flor
¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤
Dionisios
Ares Afrodite
aos deuses mais cruéis
juventude eterna
eles nos dão de beber
na mesma taça
o vinho, o sangue e o esperma
¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤
1987, Tende Piedade de Nós
anos ímpares
são anos vítimas
anos sedentos
de sangue e vingança
todo gozo será punido
e o deserto será nossa herança
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Signs I
Esta é a primeira poesia da série Signs,
que eu escrevi utilizando placas de
trânsito para transmitir uma mensagem
diferente daquela para a qual as placas
foram criadas.
Na medida em que eu estiver
a fim, vou postando as outras, na ordem em
que fora escritas.

Signs I - Poesia Experimental de Jack
Sk.
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Dan Tague
Muito boa as manipulações feitas por Dan
Tague a partir das dobras.
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Vazei
Vou passar uns dias fora. Volto na sexta
ou no sábado. Tchau.
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A
Kenning é a nossa Antonomásia
"Na literatura
germânica medieval, uma kenning
é uma figura de linguagem
poética que substitui o nome
habitual de uma pessoa ou coisa.
Na sua forma mais simples,
compreende dois termos, um dos
quais (a 'palavra-base') é
relacionado com o segundo formando
um significado que nenhum dos
termos possui individualmente. Por
exemplo, em inglês antigo o mar
podia ser chamado seg.l-ra-d
'caminho da vela', swan-ra-d
'caminho do cisne', bæþ-weg.
'caminho do banho' ou hwæl-weg.
'caminho da baleia'. Na linha 10
do épico Beowulf o mar é chamado
hronra-de ou 'caminho da baleia'.
Esta palavra
deriva da expressão norueguesa
antiga kenna eitt við,
"expressar uma coisa em
termos de outra", e é
bastante usual na língua
norueguesa antiga, literatura
anglo-saxónica e literatura
celta. As kennings estão
particularmente associadas com a
prática da poesia aliterativa,
onde tendem a tornar-se fórmulas
fixas. Os skalds (bardos das
cortes viking) faziam um uso tão
extensivo de kennings que estas
vieram a ser vistas como elemento
essencial do 'verso skáldico'." |
|
Muito bacana o artigo
da Wikipedia sobre a Kenning,
pois vai direto ao ponto e dá uma
idéia razoavelmente precisa dessa
figura de linguagem nórdica. Eu
diria que, guardadas as devidas
proporções, a Kenning
equivale a nossa Antonomásia.
Isso é muito interessante, pois na
minha opinião, prova que existe um
padrão, um mecanismo comum na forma
como o cérebro humano refina e
processa a linguagem. Quando eu me
pego pensando nessas coisas eu não
consigo admitir como alguém pode
ver isso e não ficar eufórico e
querer saber e entender mais a
respeito. Isso é quase tão bom
quanto deve ser comer a Emily
Deschanel dentro da Basílica
de São Pedro, debaixo do altar e no
meio de uma Missa do Galo.
Definitivamente, eu devo ser
alienígena.
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Palíndromo Até
cubanos metem só na buceta.
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O
caixão fantástico
O
caixão fantástico
Célere ia o caixão, e, nele,
inclusas,
Cinzas, caixas cranianas,
cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos
selvagens,
De aberratórias abstrações
abstrusas!
Nesse caixão iam, talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas
visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!
A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio...
Era tarde! Fazia multo frio.
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio!
Augusto
dos Anjos |
|
Sonya C.
Mulher boa é isso aí: fica uma maravilha
até com meia soquete e sandália.
Gostou? Faz que nem eu, vai espiar mais
fotos da Sonya
C. lá no Met
Art!
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Sobre
o pudor sexual
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O pudor sexual não pode, de nenhuma maneira simples, ser identificado pelo uso de roupas, nem pela vergonha da falta de roupas ou pela nudez total ou parcial.
Existem circunstâncias nas quais a nudez total não é falta de pudor.
A nudez como tal não deve ser igualada à falta de vergonha.
A falta de pudor só existe quando a nudez desempenha um papel negativo com relação ao valor da pessoa.
O corpo humano não é vergonhoso em si, nem, pelas mesmas razões, são as relações sexuais e a sensualidade humana em geral.
A falta de vergonha (da mesma forma que a vergonha e o pudor)
é uma função do interior do indivíduo.
Papa João Paulo II,
1998
Aê,
mulherada, podem sair andando peladas, tá liberado.
|
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Public Image
Limited

Com o fim do Sex Pistols, o vocalista Johnny Rotten (John Lydon), montou, juntamente com Keith Levenne, ex guitarrista do The Clash, o baixista Jah Wooble e o baterista David Crowe, a banda pós-punk
Public Image Limited, também conhecida como
P.I.L. ou simplesmente PIL. A banda figurou no cenário musical de 1978 a 1993 e passou por gravadoras como a
Virgin Records, a Warner Bros. e a
Elektra Records.
Enquanto todo mundo considera
Rise o maior hit do PIL, eu prefiro jogar os holofotes
em Religion. Religion, declamada Religion
e também musicada, é uma das maiores provas do peso e da agressividade do punk. Não se trata de concordar ou de discordar com as palavras que Lydon profere em
Religion, trata-se apenas de admitir a genialidade de uma argumentação inflamada e a força de um manifesto que, na minha opinião, mostra que o punk foi criado para tirar você do comodismo.
Segue abaixo a letra original e a minha tradução de
Religion, que foi uma das poucas coisas que traduzi e que exigiu tantas notas e explicações em tão simples e poucas linhas.
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Religion
- P.I.L.
Stained glass windows keep the cold outside
While the hypocrites hide inside
With the lies of statues in their minds
Where the Christian religion made them blind
Where they hide
And prey to the God of a bitch spelled backwards is dog
Not for one race, one creed, one world
But for money
Effective
Absurd
Do you pray to the Holy Ghost when you suck your host
Do you read whos dead in the Irish Post
Do you give away the cash you can't afford
On bended knees and pray to lord
Fat pig priest
Sanctimonious smiles
He takes the money
You take the lies
This is religion and Jesus Christ
This is religion cheaply priced
This is bibles full of libel
This is sin in eternal hymn
This is what they've done
This is your religion
The apostles were eleven
Now theres a sod in Heaven
This is religion
Theres a liar on the altar
The sermon never falter
This is religion
Your religion |
Religião
- P.I.L.
Vitrais mantém o frio lá fora
Enquanto os hipócritas se escondem lá dentro
Com as mentiras das estátuas em suas mentes
Sempre que a religião cristã fez-lhes cegos
Quando eles escondem
E a presa-prece ao Deus de uma cadela vadia, soletrada
ao contrário, é um Deus sem valor [1]
Não para uma raça, um credo, um mundo
Mas para o dinheiro
Eficaz
Absurdo
Você reza para o Espírito Santo quando você
chupa sua hóstia
Você lê quem morre no Correio Irlandês
[2]
Você cede o dinheiro com o qual não pode arcar
De joelhos no chão, você reza ao Senhor
Gordos e suínos sacerdotes
Sorrisos santimoniosos
Ele leva o dinheiro
Você leva as mentiras
Isto é religião e Jesus Cristo
Isto é religião de preço barato
Isto são Bíblias cheias de difamação
Isto é o pecado em eterno hino
Isto é o que eles fizeram
Isto é a sua religião
Os apóstolos eram onze
Agora são grama-sodomita [3] no Céu
Isto é religião
Há um mentiroso sobre o altar
O sermão nunca vacila
Isto é religião
Sua religião |
[1]
No original: "And prey to the God of a bitch spelled backwards is
dog" há pelo menos três jogos de palavras sem equivalentes diretos no português. O primeiro vale-se da homofonia presente em
"prey" (presa, vítima) e
"pray" (rezar, rogar). A segunda relaciona os termos
"bitch" (cadela ou puta) ao termo
"dog" (cachorro ou coisa sem valor). A terceira acentua o fato de que a palavra
"God" (Deus), soletrada de trás pra frente, torna-se a palavra
"dog", que além das
significações já citadas, é
também uma das formas de se
denominar o demônio.
[2] No original: "Irish
Post" (Correio Irlandês), um grande jornal da Irlanda. Quando a letra diz "Do you read whos dead in the Irish
Post", faz uma referência ao
"Bloody Sunday" (domingo sangrento),
nome pelo qual ficou conhecido o massacre ocorrido em
Derry, no norte da Irlanda, em 30 de janeiro de 1972, quando 26 pessoas que participavam de uma marcha pelos direitos civis foram atingidas por tiros disparados pelo
1º Batalhão de Pára-quedistas
Britânico. 13 pessoas, incluindo 6 menores de idade, morreram na hora. Duas delas foram atropeladas por veículos militares.
A décima-quarta vítima morreu seis semanas depois. Segundo testemunhas e jornalistas presentes, nenhum dos atingidos estava armado. Cinco deles foram
alvejados nas costas.
[3] No original: "sod" (gramado, turfa),
em provável alusão àquilo que é
pisoteado. O termo também possui
significado chulo -- sodomita -- que
é aquele que pratica a sodomia,
o coito anal
entre dois indivíduos. |
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Augusto dos
Anjos + Velvet Underground
Bem, acho que agora vou me largar numa
poltrona pra ler Augusto dos Anjos e ouvir
todos os meus CDs do Velvet Underground.
Se você vai continuar ligado, boa sorte.
Se vai desligar, como eu, boa sorte
também.
Bye.
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Um
trecho de Byron
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"(...) Enquanto estava sentado, debilitando-se visivelmente, uma cegonha com uma serpente no bico pousou sobre uma tumba próxima a nós; e, sem devorar sua presa, dava a impressão de nos observar fixamente. Não sei o que me impulsionou a espantá-la, porém o intento foi inútil; fez alguns círculos no ar e regressou exatamente ao mesmo lugar. Darvell apontou-a e sorriu. Falou -- não sei se para si mesmo ou para mim -- porém as palavras só foram:
-- Está bem.
-- Que é que está bem? Que queres dizer?
-- Não importa; você deverá enterrar-me aqui esta noite, e no ponto exato em que está parada essa ave. Já conhece você o resto de minhas ordens.
Então começou a dar-me algumas instruções sobre como poderia ocultar melhor sua morte. Quando terminou, disse:
-- Vê você essa ave?
-- Claro.
-- E a serpente que se retorce em seu bico?
-- Sem dúvida; não há nada raro; é sua presa natural. Porém é estranho que não a devore.
Riu-se de uma maneira espectral e disse languidamente:
--Todavia não é o momento.
Enquanto falava, a cegonha empreendeu o voo. Segui-a com os olhos um instante: não pude haver tardado mais que em contar dez. Senti aumentar o peso de Darvell, por pouco que fosse, sobre meu ombro e, ao voltar a ver seu rosto, vi que havia morrido."
Trecho do conto inacabado
"O enterro", de Lord Byron
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Georges Perec
Georges
Perec é um dos ícones da literatura
que mais me agradam. Além da sua arte, a
figura humana de Perec é digna de uma
análise profunda a respeito do potencial
criativo de nossa espécie.
As quatro imagens
acima são também uma forma direta de
relacionar o post abaixo, que trata da
caligrafia árabe, à conclusão final
onde eu proponho o OuLiPo
e a
Poesia
Concreta
como equivalentes ocidentais dessa mesma
forma de arte, especialmente no que se
refere ao pinacograma apresentado na
quarta figura, onde o francês Gilles Esposito-Farèse
representa o rosto de Perec
utilizando apenas as letras utilizadas
para escrever o nome de Georges.
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Caligrafia árabe

Imagem
de leão criada com caligrafia árabe
Paquistão, Séc.XIX - Victoria and Albert
Museum
A imagem do leão acima é originária de
Lahore, no Paquistão e faz parte de uma
rica tradição de caligrafia zoomórfica.
Essa prática, desenvolvida ao longo do
Séc.XVI revela a flexibilidade e a beleza
da escrita árabe, ao delinear formas
vivas, como leões, tigres, papagaios,
avestruzes e galos. Essa forma de arte
abre um precedente sem desobedecer as
injunções religiosas, que proíbem a
representação direta de imagens.
Os textos dessa forma de caligrafia podem
ser constituídos de versos do Corão e
incluem jogos de palavras relacionando
palavra e figura, particularmente na
iconografia Xiita.
O famoso exemplo acima contém uma prece a
Ali, genro do Grande Profeta, também
conhecido como Haidar, que em português
significa "Leão".
Brilhante essa manifestação islâmica de
um gênero artístico que talvez esteja
vinculado intrinsecamente ao inconsciente
do ser humano e cujos equivalentes
ocidentais, na minha opinião, podem ser
apreciados através de movimentos como o OuLiPo
e a Poesia
Concreta...
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Poema
Nupcial
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Rokitansky,
1876
"Ao te curvares com a rígida lâmina de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas, cresceu embalado pela fé e pela esperança daquela que em seu seio o
agasalhou. Sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens.
Por certo amou e foi amado, esperou e acalentou um amanhã feliz e sentiu saudades dos outros que partiram.
Agora jaz na fria lousa, sem que por ele se tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece.
Seu nome, só Deus
sabe, mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade.
À humanidade que por ele passou indiferente"
Oração
ao Cadáver Desconhecido
Karl
von Rokitansky,
1876
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Trabalho
prático
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"Depois de os isolar, faça cuidadosamente uma incisão longitudinal nos músculos do plano médio do períneo, o mais internamente que puder, até encontrar o folheto superior ou profundo da aponevrose perineal média. Rebata os músculos para fora, em direcção aos ramos
isquio-púbicos. Pode agora observar o referido folheto
aponevrótico, que deverá rebater da mesma forma que fez para os músculos. Está na presença do tecido adiposo do prolongamento anterior da fossa
isquio-rectal, a que já fizéramos referência na dissecção do períneo posterior. Este espaço é muito menos amplo na mulher do que no homem. Procure remover o escasso tecido adiposo que o preenche, a fim de observar os seus limites. Por fora da uretra e da vagina, deve encontrar o bordo inferior do músculo levantador do ânus, limite súpero-interno do prolongamento anterior da fossa isquio-rectal e que aqui representa o plano muscular profundo do períneo. Externamente, pode observar o músculo obturador interno revestido pela sua
aponevrose. O limite inferior é constituído pelo folheto superior ou profundo da aponevrose média do períneo. Para concluir a sua dissecção do períneo anterior, poderá abrir uma janela no músculo levantador do ânus e na aponevrose pélvica ou perineal profunda que o reveste superiormente, permitindo-lhe aceder ao espaço
pélvi-subperitoneal, mais facilmente dissecável por via abdominal."
in
Anatomia geral e dissecção humana,
J. A. Esperança Pina [et al], Pág. 124
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Murder Lily
Se você é que nem eu e também nutre uma
tara especial por uma exótica pin-up tatuada,
cheia de piercings e com aquele visual bitch
básico, visite www.murderlily.com.
O site tá lotado de mulher que pediu pra
nascer gostosa e mais uma pá delas que
não apenas implorou pra Deus de joelhos
como também fez pacto com o demo, pra
receber um upgrade mais tarde.
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Álvares
de Azevedo
Se eu morresse amanhã!
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que dove n'alva
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
Álvares de Azevedo |
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Almas marcadas
Almas marcadas é um pequeno texto
que eu escrevi dentro da
proposta do OuLiPo.
No texto inteiro, a única vogal utilizada
é a letra A. Eu escrevi este texto
depois de ter escrito o conto nenhum,
onde a história inteira é narrada sem a
utilização da vogal A, e
acreditem, embora nenhum seja um
texto muitíssimo mais longo do que Almas
marcadas, escrevê-lo foi
verdadeiramente mais
simples.
Almas
marcadas
A ama caça a vaca, a machadada... a mata, faz a farra. A vaca, já parada, sangra na grama branca da praça.
A arma está lá, parada. A cada quarta, facas gastas dançam valsas já passadas, gatas aladas flagram garças assanhadas. A cada quarta, falsas santas matam nas matas, carrancas ralham sacanas, mas castas.
Prá lá das canas, a água clara vaza, na marra, da alta cascata. Cavalga nas valas, arrasta plantas, faz chalaça, passa mansa. As
chagas, as máscaras, as taras... as farsas guardadas nas malas rasgadas a garras cravadas, arranhadas. As ratazanas atrás das calhas, a lama nas barras das calças. Ar, sal, falhas... as faltas gravadas nas latas, amarradas às varas, fadadas às chamas.
Na casa, a jarra rachada na bancada barata. Nas camas manchadas, as cartas amassadas, as caras vazadas. Nas salas lacradas, há almas caladas, há a alma da vaca, da vaca caçada a machadada.
Na bancada, a jarra. Na jarra, calma: nada há.
Jack
Sk.
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Gineocologismos
II 
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Agora não
quero mais
A Telefônica já conseguiu normalizar o
serviço de transmissão de dados em quase
todo o estado de São Paulo, mas agora
quem não está a fim de publicar nada no
blog sou eu.
Como a vida é
engraçada.
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Teddy Toy

Ursinho
morbidinho para criancinhas necrofilinhas.
Erich Fromm certamente pararia pra pensar.
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Sobre
a necrofilia
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Oração
católica para exorcismo
Exorcizo te, omnis spiritus immunde, in nomine Dei
(†)
Patris omnipotentis, et in noimine Jesu
(†) Christi Filii
ejus, Domini et Judicis nostri, et in virtute Spiritus
(†)
Sancti, ut descedas ab hoc plasmate Dei
(nome),
quod Dominus noster ad templum sanctum suum vocare dignatus
est, ut fiat templum
Dei vivi, et Spiritus Sanctus habitet in
eo.
Per eumdem Christum Dominum
nostrum, qui venturus est judicare vivos et
mortuos, et saeculum per ignem.
(†):
fazer o Sinal-da-Cruz
|
F-o-d-e-u
A Rede Internet da Telefônica caiu geral hoje, em
São Paulo. Isso
significa que não só quem usa Speedy,
mas também delegacias, o Detran, o
Poupa-Tempo e diversos serviços
bancários que precisam dessa rede também
estão zoados. Diz a lenda que a Prodesp
quer o cu da Telefônica vivo ou morto. Em outras palavras: todo
mundo que depende da Internet pra alguma
coisa e o faz via Telefônica, se fodeu.
Vou postar tudo offline
e quando essa merda voltar, coloco no ar.
|
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O colecionador
de cabeças

General-Major
Horatio Gordon Robley e sua
coleção de cabeças Maori tatuadas.
Em 1908, Horatio ofereceu sua
coleção ao Governo da Nova Zelândia por
1.000 Libras,
mas sua oferta foi recusada. Hoje, 30 das suas cabeças estão na coleção do Museu de História Natural, em
New York.
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Maori e a prática do Moko
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Álvaro
de Campos
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Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Álvaro de
Campos
21 de outubro de
1935
De um modo geral, a vida é mais
ridícula do que se pensa, eis a
grande verdade. |
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começando...
Mais um mês novo e outro layout
psicopata. Eu gosto de de criar imagens
bizarras e mórbidas para este blog. Eu
até ousaria dizer que essa é uma
das partes que mais me relaxam: é bacana
passar horas reunindo, tratando, montando
e concebendo os cabeçalhos e rodapés do
Blood Pack. A fotografia que me inspira é
a encontrada em Pushing
Daisies, onde as cores e a
iluminação parecem intensificar a aura
de conto de fadas que exala da série.
Bryan Fuller, o criador de Pushing
Daisies, também é o criador de Dead
Like Me e o co-criador de Wonderfalls,
onde aliás, Lee Pace, que faz o papel do
confeiteiro Ned em Pushing
Daisies, faz o papel de Aaron Tyler...
Confuso, né?
Mas tudo bem, foda-se, não tinha nada a
ver isso mesmo.
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Toda a
proposta deste blog está resumida em seu título e
subtítulo: "Blood Pack
- sobre a arte de reciclar seu
próprio sangue". Se você não entendeu o
que isso significa, é provável que não entenda mais
nada do que acontece por aqui. Aliás, se você não
entendeu isso, é bastante provável também que nem
esteja lendo esta nota, afinal de contas, quem lê as
letras miúdas nos contratos, não é mesmo? |
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Blood
Pack é escrito e produzido por
Jack Skellington. Você pode reproduzir os meus textos
onde quiser, mas cite a fonte. Se você gostou do que
leu aqui, escreva um e-mail
comentando, pra gente conversar. Se não gostou, nem perca
tempo tentando me azucrinar, pois eu não vou estar nem
aí pra tua crítica. Se curtiu o blog, indique-o para os
seus inimigos. Se não curtiu, vá tomar no cu e não volte
mais aqui, que você ganha mais. |
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Since September 17, 2007
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