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de Novembro de 2008.
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Exceptio veritatis
- revista e corrigida
Antes
da leitura do capítulo abaixo, é
aconselhável ler a Parte um, In intinere,
que inicia a trama e ajuda a delinear o
cenário. Para efeitos de comparação, a
primeira versão da Parte dois,
abaixo
Exceptio veritatis
A imagem tridimensional do corpo -- ou do
que sobrara dele -- projetava-se quase
como um objeto sólido no meio do gabinete
do Comandante da Primeira Frota Estelar
dos Estados Terrestres Unidos.
Assemelhava-se a uma múmia enegrecida,
resgatada de dentro de um aspirador e
pisoteada por uma manada de búfalos. Ao
lado da múmia nua, via-se o uniforme
azul-claro, se é que aquele monte de
farrapos poderia algum dia ser chamado de
uniforme. As mangas ostentavam a patente
de primeiro-tenente. O velho Comandante
inclinou o corpo para frente e deu a volta
na projeção que partia do pequeno disco
anexado ao relatório e colocado no chão.
Parecia hipnotizado.
-- Fantástico! Às
vezes tenho a impressão de que poderia
segurar e sentir o peso de um desses
hologramas... Mas bem, apesar do péssimo
estado não vejo porque esse pobre diabo não
poderia ter sido vítima de um acidente.
Você pode me mostrar onde estão as
marcas que levaram os peritos a concluírem
de que se trata de um assassinato?
O Primeiro-Imediato
tocou o holograma com o dedo, na testa do
corpo e em seguida realizou um movimentou
circular, fazendo com que a imagem
rotacionasse 180º e deixando o cadáver
de barriga para baixo.
-- Aqui está... O
Senhor consegue perceber esses três
pequenos pontos, que parecem formar um triângulo?
-- Disse o jovem, apontando para a nuca do
corpo -- Eu sei que as condições destes
restos estão péssimas, mas os furos
foram encontrados depois que o legista
percebeu isto, veja. -- Tocando com os
dois indicadores na nuca da projeção e
afastando os dedos como se estivesse esgarçando
um tecido, teve acesso à imagem do
interior do crânio necropsiado -- Vê?
nenhum sinal do cérebro, apenas alguns
dos nervos cranianos... olhe, um nervo óptico
aqui, pendente... e aqui, os vestígios do
que sobrou dos nervos raquidianos, as
terminações nervosas da medula espinhal,
descendo pelas vértebras... -- Suas mãos
indicavam o caminho pelo qual os olhos
deveriam correr durante sua explicação.
-- O cérebro foi
vaporizado! -- Arrematou o Comandante, com
os olhos fixos no holograma e manifestando
sua opinião em um dos poucos assuntos do
dia no qual não era um completo ignorante
-- Foi atingido por uma Colt laser 4500!
Rapaz essa arma é um absurdo! Não é
qualquer um que sabe como usar uma dessas.
Um errinho e vaporiza-se tudo no trajeto
dos lasers até uma distância de
seis mil metros! Três feixes de lasers
a 4.500º Celsius entrando por sua cabeça
a 5 milionésimos de segundo! Não há
orifícios de saída e os orifícios de
entrada são praticamente imperceptíveis!
O atirador sabia o que estava fazendo,
esse era dos bons!
-- Exatamente. A arma foi
muito bem calibrada, o que leva a crer que
o crime foi premeditado. O disparo deve
ter ocorrido de muito perto, pois não há
traços de outras vaporizações no Silo.
Os lasers atravessaram-lhe o crânio
deixando esses três furos e vaporizaram
completamente seu tecido cerebral,
fotocoagulando todos os vasos sangüíneos.
Nenhuma gota de sangue foi derramada. Ele
provavelmente não chegou a perceber que
iria morrer, sequer teve tempo de gritar.
O mais incrível é imaginar o cérebro
vaporizado escapando-lhe pelos orifícios
da cabeça. Deve ter sido uma cena
bizarra! -- Confirmou o Primeiro-Imediato,
não deixando escapar uma pequena dose de
excitação ao imaginar a cena.
-- O que mais diz o
relatório? O que há de relevante, que eu
deva saber, na sua opinião? -- Perguntou
o Comandante, deixando claro que não
tinha a menor intenção de ler as 1.896
páginas digitais que recebera. Este
sujeito aqui ainda vai nos dar muita
dor-de-cabeça, guarde muito bem isso,
menino. A você, por ser o oficial responsável
pelo Cruzador Espacial que serviu de cenário
a essa loucura, e a mim, por ser o responsável
por todas as espaçonaves que fazem parte
da Primeira Frota...
-- Bem, os relatórios
dizem que não foi possível conhecer a
identidade do corpo através do chip
de identificação subcutâneo e nem através
de análise de DNA -- Respondeu o
Primeiro-Imediato, rotacionando a imagem
holográfica do cadáver mumificado a sua
posição original.
-- Nenhum resultado com
DNA e nada com o chip de identificação
subcutâneo? Como isso é possível?
-- Os nanorobôs, outra
vez. Depois de terem extraído cada uma
das moléculas de água do corpo, os
nanorobôs presentes no substrato entraram
na segunda fase de processamento. Você
sabe, o corpo humano é feito de átomos,
assim como o nosso DNA e tudo o que
conhecemos... Eu peso cerca de 70kg e 43kg
são apenas átomos de oxigênio. Os átomos
de hidrogênio são responsáveis por
cerca de 7kg do meu corpo. Eles estão
entre os átomos mais comuns em nossas moléculas
de DNA. Você sabe também que um átomo
de oxigênio mais dois de hidrogênio
resultam em uma molécula de água. Tudo o
que os nanorobôs fizeram foi seqüestrar
os átomos de oxigênio e de hidrogênio
restantes nesse corpo e reagrupá-los na
forma de novas moléculas de água para
enviá-las ao sistema de drenagem do Silo.
Este sujeito que você está vendo aqui é
praticamente um pedaço de carvão.
Originalmente o peso estimado em função
da altura era de cerca de 90kg. Deve haver
aí uns 18kg de carbono e algo em torno
de 4,5kg de nitrogênio... Há também cálcio,
fósforo, enxofre, potássio, sódio, magnésio...
Mas eu não acho que chamar nosso garoto
aqui de carvão está muito longe
da sua realidade atual...
-- Mas como isso afetou
as informações no chip de
identificação? As informações
presentes nos chips não são físicas,
são? -- Indagou o Comandante.
-- As informações
não. As informações são basicamente
energia. Mas o meio
onde permanecem é um meio físico.
No caso dos chips de identificação
subcutâneos, as informações ficam
armazenadas em um fluído supercondutor
denominado silano. O silano
é um composto molecular formado por um átomo
de silício e três de hidrogênio. Com a
fragmentação das moléculas do fluído
supercondutor pelos nanorobôs, toda a
informação nele armazenada se perdeu. O chip
desse corpo foi vasculhado pelos
especialistas em recuperação de dados
digitais e o resultado foi negativo.
-- Precisamos rever o
mecanismo de ação desses malditos
nanorobôs! -- O Comandante já começava
a dar sinais de impaciência, afinal de
contas tudo o que ele sabia a respeito do
laudo cadavérico não parecia lhe dar
muitas esperanças de enxergar o caso
elucidado. Suas bochechas gordas já se
mostravam ligeiramente avermelhadas por
baixo da barba branca cerrada.
-- Acho mais simples
pararem de executar pessoas dentro de
nossos Silos Biológicos. Essa tecnologia
presente em nossos nanorobôs é
exatamente aquilo que podemos chamar de tirar
água de pedra. É o tipo de
tecnologia próxima da magia, é uma
tecnologia que esbarra na fronteira dos
milagres... É capaz de salvar vidas
-- Falou com calma o Primeiro-Imediato,
que continuou -- Além do mais, os nanorobôs
não foram capazes de vencer os peritos da
Estação Internacional de Europa...
Um sorriso de esperança
iluminou a face do Comandante e o
Primeiro-Imediato continuou:
-- Os peritos foram
capazes de nos dizer muito mais do poderíamos
imaginar olhando para esse... para esse...
-- Pareceu imaginar uma palavra para
denominar o corpo destruído e
arrepender-se dela, retomando o discurso
num tom mais sério -- para esse corpo.
Para começar, trata-se de um humano
criado na Terra. O que sobrou dos ossos e
dos feixes musculares, assim como a ausência
de quaisquer vestígios de implantes cirúrgicos
para compensação de gravidade, prova que
não se trata de um humano criado em
Marte, em Mercúrio ou em uma das colônias
humanas na Lua, em Europa, Ganímedes,
Enceladus ou Titan. Também foi
identificado como caucasiano. A análise de uma amostra da íris
de um dos globos oculares ressecados
apresentou traços suficientes, embora
degradados, de melanina e feomelanina
cujas proporções convenceram os peritos
de que os olhos eram verdes. As análises
realizadas em fios de cabelos e em pêlos
não deixam dúvidas de que se tratava de
um indivíduo ruivo... O relatório diz
que "a incidência de traços
degragados do pigmento feomelanina, da
ordem de 97,355678%, é determinante para
que se possa assegurar como ruiva a cor
dos cabelos e pêlos analisados"...
-- Não sei se devemos
nos animar com essas informações, meu
caro... Me parecem uma descrição um
tanto quanto vaga de quem possa ter sido o
antigo dono deste corpo triturado -- disse
o Comandante, espalmando as mãos em direção
à imagem que ainda se projetava e
arqueando as sobrancelhas.
-- Sim, mas eu não
terminei... Os peritos foram muito além
disso. Na tentativa de identificar o
corpo, adivinhe o que eles descobriram? --
Perguntou o Primeiro-Imediato, apontando
para a cópia do relatório em suas mãos
e em seguida para o relatório em cima da
mesa de seu superior -- Ele não era um
primeiro-tenente. A patente do uniforme não
corresponde a sua posição na hierarquia
da Frota Estelar. Não era um
primeiro-tenente, era, com a mais
absoluta certeza, um Oficial-Superior...
-- Você só pode estar
de brincadeira! -- Falou o Comandante,
elevando a voz e voltando-se para pegar o
relatório para olhá-lo com seus próprios
olhos -- De onde veio essa?
-- Ele não possui quaisquer traços de padrões papiloscópicos
nas solas dos pés. A situação se repete
nas palmas das mãos e em cada um dos
vinte dedos. Isso significa que ele não
tem impressões digitais, nem de palmas,
nem de solas. Apenas os
Oficiais-Superiores são submetidos à
eliminação desses padrões... É um dos
procedimentos mais tradicionais na admissão
de Oficiais-Superiores na Frota Estelar!
-- Afirmou o Primeiro-Imediato,
dirigindo-se a um dos pés ressecados da
imagem holográfica e fazendo com que ela
girasse num ângulo ascendente que levou a
sola do pé esquerdo do corpo projetado até
perto do nariz do Comandante -- Olhe,
assim como nós! -- disse ele, expondo a
própria mão e fazendo com que o velho
Comandante olhasse para si mesmo e
lembrasse de que também ele não possuía
nenhum vestígio de impressões digitais
ou nas palmas.
-- O que um
oficial-superior poderia desejar dentro de
um Silo Biológico vestido com o uniforme
de um oficial-subalterno? -- Ralhou
indignado o velho homem já acostumado às
facilidades que sua alta patente lhe
proporcionavam desde sempre.
-- Discrição --
Respondeu o Primeiro-Imediato -- Queria
estar ali sem chamar qualquer atenção.
Mas optou pelo posto mais alto dentro da
hierarquia dos oficiais-subalternos, para
não precisar prestar contas aos outros
oficiais menores com os quais encontrou
pelo caminho. Evitou a patente de Capitão-Tenente
pois os oficiais-intermediários já começam
a gozar de certa visibilidade, a presença
deles é muito menos esperada numa área
daquelas.
-- Bem, nesse caso a
descrição dos peritos já pode gerar uma
boa combinação de possíveis nomes para
esse corpo entre o Alto-Comando da Frota
Estelar! -- Argumentou o Comandante, como
se estivesse ele próprio sugerindo algo a
respeito do qual ninguém até então
havia pensado.
-- Sim, pode. Mas eles
fizeram melhor -- Rebateu o jovem,
colocando seu relatório sobre uma
cadeira, focado no holograma enquanto se
abaixava para que seus olhos ficassem
muito próximos à face carcomida daquela
projeção -- eles reconstituíram o rosto
deste homem a partir dos padrões craniométricos
e do que restou dos tecidos faciais...
Os olhos do Comandante
arregalaram-se e sua pupila dilatou, como
se prenunciasse a explosão de um sol e da
qual não seria capaz de escapar. Moveu
seu corpo pesado para trás, apoiando a mão
direita com força sobre sua mesa ao mesmo
tempo em que o Primeiro-Imediato passava
uma das mãos sobre a face do corpo
projetado, revelando a reconstituição
realizada pela equipe de peritos forenses
da Estação Internacional de Europa.
-- Yoshua Ben Zeev,
Tenente-Brigadeiro responsável pelos
estudos científico-militares na Estação
Geodésica Amundsen-Scott, no Pólo Sul
terrestre e nomeado para o cargo pelo
Governo depositário da Organização dos
Estados Terrestres Unidos após a ratificação
do Tratado Antártico, que oficializou a
militarização de toda a área. Eis o
nosso homem! -- Disse o
Primeiro-Imediato em um só fôlego,
continuando após respirar -- Seja lá o
que está acontecendo lá embaixo na
Terra, mais precisamente na Antártida, com
certeza tem relação com o incidente
no Cruzador Espacial Centaurus.
O Comandante precisou
se sentar. Como irmão de patente daquele
Tenente-Brigadeiro assassinado, ressecado
e destruído bem a sua frente e consciente
do alto grau de sigilo de todos os
assuntos que diziam respeito ao Pólo Sul
terrestre após a ratificação do Tratado
Antártico há cerca de 6 anos antes, ele
sabia que realmente estavam diante de um sério
problema.
E desta vez, quem
permaneceu sem entender nada foi o jovem
Primeiro-Imediato.
TO BE CONTINUED...
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| 26
de Novembro de 2008.
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Níveis de
linguagem
A proposta de escrever um conto de
ficção-científica policial e
publicá-lo na Internerd aos poucos, em
pequenas partes, surgiu de uma idéia que
eu tive há algum tempo, de descobrir até
que ponto um roteiro originalmente
pré-estabelecido pode acabar sendo
alterado em virtude das opiniões e
reações de leitores que não conhecem o
final já planejado. Achei que seria uma
boa oportunidade de testar se algumas
soluções que para mim soam
interessantes, mantém o mesmo status
junto ao leitor.
Após conversar com algumas pessoas a
respeito do capítulo postado ontem,
causou algum incômodo o fato de que os
diálogos ficaram técnicos demais. Na
parte um, In intinere, a conversa
flui entre uma personagem com conhecimento
científico e outra leiga no assunto. Já
na parte dois, Exceptio veritatis,
a conversa ocorre entre um grupo de
especialistas. Enquanto na parte um, o
leitor sente-se integrado ao diálogo, na
parte dois, sente-se excluído dele. As
duas soluções, que caminham em
direções opostas, demonstrou que as
pessoas são mais simpáticas à presença
do leigo do que à presença dos
especialistas.
Pra que as pessoas que eventualmente se
interessarem por esta minha proposta, vou
postar, em breve, uma nova versão da
parte dois, mantendo os mesmos conceitos
já apresentados mas desta vez com um novo
núcleo de personagens. Como um mesmo
assunto admite um diálogo em diferentes níveis
de linguagem, dependendo de quem
conversa e com quem, a alteração das
personagens conduzirá os diálogos a um
novo modelo, obrigando a alteração do nível
de linguagem técnico para outro que
melhor se adapte à situação
descrita.
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| 25
de Novembro de 2008.
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Sci-Fi (Parte
Dois) - Exceptio veritatis
Exceptio veritatis
O corpo -- ou o que sobrara dele -- repousava sob a bancada. Assemelhava-se a uma múmia resgatada de dentro de um aspirador e pisoteada por uma manada de búfalos. Ao lado da múmia nua, repousava o uniforme azul-claro,
se é que aquele monte de farrapos poderia
algum dia ser chamado de uniforme, ostentando a patente de primeiro-tenente. Quatro homens observavam, absolutamente calados, os restos daquele infeliz. A identidade de quem quer que tenha sido aquele homem assassinado era o que ocupava suas mentes naquele momento.
-- Quais foram os resultados da análise do chip de identificação subcutâneo? -- Questionou o Primeiro-Imediato ao perito especialista em recuperação de informações digitais.
-- Digna de desespero -- Respondeu o homem, que continuou --
Você sabe que toda tecnologia de armazenagem de dados nesse chips está baseada nos supercondutores de
silano, não sabe?
O Primeiro-Imediato fez que
sim com a cabeça e o perito continuou:
-- Então... Depois de terem extraído cada uma das moléculas de
água do cadáver, os nanorobôs presentes no substrato entraram na segunda fase de processamento, partiram para o processo de reestruturação molecular... começaram a
seqüestrar os átomos de oxigênio e de hidrogênio presentes no corpo e a reagrupá-los na forma de novas moléculas de água para enviá-las ao sistema de drenagem do silo. Você sabe, um
oxigênio mais dois hidrogênios resulta
em água. Isso simplesmente desmantelou cada uma das moléculas de silano do chip de identificação. É um processo extremamente agressivo. Os nanorobôs
abordaram cada molécula de silano do chip e
a fragmentaram...
pá! pá! pá! pá! pum! Pronto, e agora
a pobre molécula de silano foi reduzida a um átomo de silício e quatro de hidrogênio. Os hidrogênios vão, o silício fica. Sobrou todo o silício, mas os dados armazenados no fluído supercondutor...
pfffffff... já eram. Não há engenharia-reversa que os reconstitua. Talvez os nanorobôs tenham nos apresentado o calcanhar-de-aquiles da tecnologia dos supercondutores de silano.
-- Isso significa que podemos esquecer o
Plano B... Se até os silanos do chip foram desmantelados, imagino as condições das moléculas de DNA. -- Manifestou-se outro perito, numa voz grave.
-- Posso lhe assegurar de que
quanto ao DNA que um dia esteve aqui, sobraram carbono e nitrogênio que não acaba mais,
mas DNA propriamente... já não apostaria
minhas férias nisso -- Completou o especialista em recuperação de dados, em tom cínico.
-- Quais as chances de obtermos ao menos uma amostra de DNA mitocondrial desse sujeito? Se obtivermos uma minúscula amostra que seja, um fragmento infinitesimal... Podemos amplificá-lo e
seqüenciar os pares-base que mantém a dupla-hélice coesa...
Podemos reconstruir o fragmento a
partir disso... Mesmo que consigamos obter um simples alelo, já será muito mais do que temos
agora, já teríamos um ponto de partida, uma
luz.
Poderíamos localizar prováveis parentes no banco de dados genético da Frota Estelar -- Rebateu o perito de voz cavernosa.
-- Não posso lhe dizer
com certeza absoluta quais são nossas
chances exatas, mas posso afirmar que certamente
necessitaríamos de muito mais tempo para talvez
obtermos essa amostra do que dispomos. É verdade que ainda há muito hidrogênio e muito oxigênio nesse corpo, já que ele não foi totalmente absorvido pelo substrato. O sistema de manutenção robotizada semanal das equipes de engenharia ambiental interrompeu o processo assim que o localizou. Mas mesmo considerando isso e considerando também que há infinitamente mais DNA em um organismo do que silano em um chip, ainda assim, as chances me parecem muito baixas. O processo de
seqüestro de hidrogênio e oxigênio realizado pelos nanorobôs não é exatamente aleatório. Pode nos parecer aleatório em virtude da complexidade imposta
ao padrão de coleta pelo James Joyce, mas seguramente não é.
Não é mesmo. O DNA é composto basicamente por
adenina, guanina, citosina e timina. Pela
ação dos nanorobôs no chip e pelas características moleculares do silano, eu apostaria no fato de que as moléculas com maior incidência, através de redundância, dos átomos buscados, foram as primeiras a serem abordadas... Silano, três hidrogênios... Em comparação... Adenina, cinco hidrogênios... Guanina e Citosina, cinco hidrogênios e dois oxigênios cada...
E a timina... Seis hidrogênios e dois oxigênios. Isso me parece um bom padrão de ocorrência atômica em redundância... Aposto que
devido à quantidade de hidrogênios e
oxigênios que possuem, as moléculas de
DNA começaram a ser processadas antes dos
silanos, talvez dois ou três dias antes...
O Primeiro-Imediato, que
havia desviado sua atenção da conversa, interrompeu
a discussão sem ao menos se dar conta:
-- Ele não era um primeiro-tenente. A patente do uniforme não corresponde a sua posição na hierarquia da Frota Estelar. Não era um primeiro-tenente, era um Oficial-Superior... No mínimo um Capitão-de-Corveta. Talvez um Comodoro, quem sabe até mesmo um Almirante. Mas não um primeiro-tenente,
com certeza -- Enquanto falava, observava atentamente uma das plantas dos pés do corpo sobre o balcão.
Parecia ter chegado ali naquele momento,
parecia ter se esquecido de tudo o que
havia sido dito dentro daquele
laboratório até então.
Os três peritos
entreolharam-se e inclinaram-se ao lado do Primeiro-Imediato com os olhos fixos na sola do pé esquerdo do cadáver mumificado, que ele examinava atentamente.
-- Vejam, sem quaisquer traços de padrões papiloscópicos nas solas dos pés. A situação se repete nas palmas das mãos e em cada um dos vinte dedos. Apenas os oficiais-superiores são submetidos à planificação dos padrões papiloscópicos -- Afirmou o Primeiro-Imediato, largando o pé ressecado e expondo as
próprias mãos, também planificadas e
sem nenhum vestígio de impressões
digitais ou nas nas palmas -- O que um oficial-superior poderia desejar dentro de um Silo Biológico vestido com o uniforme de um oficial-subalterno?
-- Discrição -- Falou o terceiro perito, que até então não havia se manifestado -- Queria estar ali sem chamar qualquer atenção. Mas optou pelo posto mais alto dentro da hierarquia dos oficiais-subalternos, para não precisar prestar contas
aos outros oficiais menores com os quais
encontrou pelo caminho. Evitou a patente de Capitão-Tenente pois os oficiais-intermediários já começam a gozar de certa visibilidade, a presença deles é muito menos esperada numa área daquelas.
O jovem Primeiro-Imediato responsável
pelo cruzador-espacial que havia servido
de cenário para aquele crime bizarro
exibiu uma face iluminada:
-- E também já sei como vamos identificar esse homem -- disse,
mordendo o lábio inferior enquanto segurava a cabeça
do homem desconhecido -- vamos nos basear nos padrões craniométricos e no que restou de tecido na região e reconstituir sua face. Em seguida vamos
comparar o rosto obtido ao banco de imagens da Frota Estelar. Esse homem vai aparecer em alguma ficha, tenho certeza absoluta.
Como se tivessem sido
acionados por máquinas de choque, os três peritos começaram a se movimentar para dar início à proposta do Primeiro-Imediato, que concluiu, extraindo daquela cabeça estéril um tufo de cabelos brancos e quebradiços que mais parecia um chumaço de fios sintéticos:
-- Eu apostaria como se
trata de um caucasiano, mas vamos identificar a cor mais provável de sua pele e de seus pêlos analisando como este cabelo interage com
alguns tensoativos e submetendo a amostra à microscopia eletrônica.
TO BE CONTINUED...
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| 24
de Novembro de 2008.
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Sci-Fi (Parte
Um) - In intinere
In intinere
-- Mas há quanto tempo ocorreu o acidente? -- Perguntou o Comandante da Primeira Frota Estelar da Organização dos Estados Terrestres Unidos.
-- Os peritos da Estação Internacional de Europa estimam em cerca de 96 horas terrestres. -- Respondeu o jovem Primeiro-Imediato do Cruzador Espacial Centaurus.
-- Baseados em quê? -- Voltou a indagar o Comandante, visivelmente incomodado com sua própria dificuldade em entender a situação. Desde que fora criada, há mais de três séculos, era o primeiro acidente do tipo registrado na Primeira Frota.
-- Baseados nos exames entomológicos realizados no corpo encontrado no Silo Biológico 1. De acordo com os peritos, a análise da fauna cadavérica indicou a presença de
vespas parasitas, larvas de Staphylinidae e de
Scarabaeidae.
-- Você está me dizendo que a estimativa se deu baseada em exames entomológicos?
Está me dizendo que existem insetos dentro no Centaurus? Os suportes de vida das espaçonaves da Primeira Frota não estão sendo adequadamente
esterilizados? -- O Comandante não estava entendendo absolutamente nada. Quanto mais o Primeiro-imediato respondia a suas indagações, mais ignorante ele se sentia. Suas dúvidas manifestavam-se em seu gabinete como a lendária Hidra de Lerna: para cada cabeça cortada, duas novas cresciam. As dúvidas constantes e a absoluta ignorância quanto aos assuntos mais banais vividos pelos oficiais diariamente eram o maior problema dos Comandantes, mestres nas relações político-estratégicas mas verdadeiros boçais científicos. Percebendo
o mal-estar, o Primeiro-imediato tomou a iniciativa de explicar um pouco melhor a situação:
-- Todos os sistemas de suporte de vida das espaçonaves da Primeira Frota permanecem funcionando dentro dos mais perfeitos padrões. Não é esse o problema. Se me permite, Comandante, os insetos tratam-se de uma pequena necessidade ecológica. O Centaurus é o Cruzador Espacial com maior autonomia de vôo já desenvolvido pela
Terra, um dos mais eficientes da linha,
podemos afirmar sem receio, entre todas as
civilizações da Federação. Podemos permanecer 25 anos sem necessidade de
reabastecimento, com uma tripulação de 1.250 homens. Os insetos são agentes essenciais para essa conquista.
O Comandante franziu uma das sobrancelhas e reclinou-se em sua cadeira.
-- Por favor, prossiga. -- Disse ao Primeiro-imediato, que continuou:
-- O suporte de vida do Centaurus conta com dois Silos Biológicos. O Silo Biológico 1, o
Plantae, que é o que nos interessa neste momento, dedica-se à base alimentar de nosso ecossistema artificial e possui 5.000 acres de plantações, escalonados em 10 níveis.
É muita coisa, muita coisa mesmo,
em um espaço cúbico razoavelmente
restrito. Abaixo do primeiro nível, possuímos 12 biotérios, onde nossos engenheiros ambientais mantém rígido controle sobre a criação de animais necessários. Sabe como é, minhocas, por exemplo. Mas as minhocas são apenas os animais mais óbvios. Também necessitamos de alguns insetos para que a ordem se mantenha no
Silo Biológico. Infelizmente, não há tecnologia disponível em nenhuma civilização conhecida, capaz de eliminar
completamente a ação de pragas. Além
disso nosso controle de pragas não é feito a base de manipulação genética desde os acidentes com transgênicos nos primeiros cruzadores espaciais, há 200 anos. Para isso nos valemos de alguns insetos e as
vespas parasitas encontradas no
cadáver são extremamente importantes no controle da população de lagartas-do-milho, por exemplo. O ataque de uma dessas lagartas a uma folha de milho, resulta na secreção de uma série de substâncias pela planta, que atraem especificamente as vespas parasitas, que
por sua vez colocam seus ovos dentro das lagartas vivas. As larvas da vespa parasita então devoram as lagartas literalmente, de dentro pra fora, até eclodirem. -- Os olhos do Comandante não piscavam e sua boca deixou escapar uma dobrinha de asco. -- Da mesma forma, os estafilínideos, os responsáveis pelas larvas de
Staphylinidae no corpo -- Prosseguiu o Primeiro-imediato -- são extremamente importantes, em primeiro lugar porque algumas espécies colaboram com a decomposição
de restos de plantas, flores e até de
pólem...
restos de matéria vegetal em geral. Em segundo lugar, porque outras espécies
de estafilínideos mantém o equilíbrio das populações de outros insetos e
também de caracóis. Nossos últimos amigos
citados do relatório, responsáveis pelas larvas de
Scarabaeidae, pertencem à família dos
escarabeídeos. Eles são nossos velhos conhecidos escaravelhos. Alguns
deles das mesmas espécies veneradas pelos antigos egípcios, aquele povo que
construiu as pirâmides na Terra.
Escaravelhos ajudam a decompor os excrementos dos mamíferos criados no Silo Biológico 2, o
Animalia. Esses excrementos retornam ao Silo Plantae
por motivos óbvios. Isso explica a presença dos três
grupos de insetos citados no relatório. Mas quer saber da maior? -- Perguntou o jovem ao Comandante, esboçando um sorriso sarcástico e em seguida cerrando um dos olhos e mordendo os lábios -- Quer saber porque esses insetos, que normalmente surgem em um cadáver
apenas depois de um a três anos, quando a carcaça geralmente apresenta o tegumento já completamente seco, foram encontrados em um cadáver com intervalo pós-morte estimado em
meras 96 horas pelos peritos?
O Comandante, ainda de olhos arregalados e manifestando surpresa, gesticulou um
sim com a cabeça, parecendo contagiado pela exposição quase teatral.
-- Porque os substratos que mantém vivas todas as plantas do Silo Biológico
Plantae contam com um dos mais perfeitos sistemas de reciclagem e
re-captação de água que eu já vi. Os substratos possuem bilhões... não... possuem trilhões de nanorobôs que atuam como bombas microscópicas, controlados
um-a-um pelo Cérebro-eletrônico do Centaurus, o
James Joyce. Esses nanorobôs são capazes de extrair cada molécula de água em contato inerte com os substratos e considerada dispensável para o suporte de vida vegetal do Silo
para encaminhá-la diretamente aos dutos de drenagem. Nosso cadáver foi literalmente drenado pelo substrato até os ossos.
O infeliz não chegou a cheirar mal nem um
pouquinho só. Não fosse pelo sistema de manutenção robotizada semanal, realizado pelas equipes de engenharia ambiental, o corpo todo teria sido inteiramente absorvido pelos substratos e transformado em
fertilizante sem que ninguém
sequer percebesse. Tremendo azar não ter morrido em outro lugar.
Fez-se um silêncio. O final da última frase,
"morrido em outro lugar", não poderia ser menos apropriado para o caso, uma vez que conotava uma morte
natural. O relatório dos peritos era bem claro em todos os termos e explicações que demonstravam que o tripulante encontrado seco no Silo Biológico 1 do Cruzador Espacial Centaurus da Primeira Frota Estelar dos Estados Terrestres Unidos não fora acidental e muito menos, natural.
Ele não havia morrido. Havia sido assassinado.
TO BE CONTINUED...
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| 23
de Novembro de 2008.
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O vazio dentro
da gente
O vazio dentro da gente é uma coisa estranha. O vazio dentro da gente é uma ausência óbvia, mas diferente das outras ausências porque dói. Dói mais ou menos como dói como a fome, mas é como se fosse uma fome que toma o corpo todo. Toma o corpo todo como se fosse a calmaria que antecede as grandes tempestades. O vazio dentro da gente é uma coisa estranha, porque traz a sensação de que a natureza inteira está se unindo para explodir lá dentro, em uma daquelas explosões que não deixam pedra sobre pedra, que engole cada órgão como se fossem marinheiros desesperados. O vazio dentro da gente evoca uma guerra interna onde nada mais coopera e tudo mais entra em desacordo. Evoca os fantasmas que sempre estiveram escondidos nos lugares mais escuros.
O vazio dentro da gente é uma coisa tão estranha, que mesmo sendo dentro da gente, dá a justa sensação do contrário: dá a sensação de que é a gente que está dentro dele.
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Saibam todosA
partir de hoje eu serei apenas
mais um grande filho-da-puta. E
sim, a culpa é toda sua.
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Bo Bartlett

Leviathan,
Bo Bartlett, 2000
Oil on linen - 89 x 138 inches -Private
Collection
Bo Bartlett é
um pintor norte-americano da escola realista
e com uma visão modernista, cuja obra tem
como foco seu olhar sobre a beleza das
pessoas e das paisagens americanas. Sua
formação artística foi obtida na Pennsylvania
Academy of the Fine Arts.
Você pode conhecer
mais a respeito do trabalho dele aqui.
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| 22
de Novembro de 2008.
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Ouroboros

O ardente encontro secreto da carne suada no êxtase surreal do frenesi revelado no breve instante em que a gruta molhada estremece diante dos sentidos aguçados pela sensação de prazer que brotam do sentido que se coloca em fuga feroz rumo ao sentimento selvagem e retido pelos hormônios contidos na pele tomada pela redenção surgida do fundo do poço escondido nas profundezas da alma concreta daquele que movimenta o corpo num compasso desvairado como potro arredio em luta assustada que insiste em perpetuar o momento fugaz através de líquidos viscosos gerados no ardente encontro secreto da carne suada no êxtase surreal do frenesi revelado no breve instante em que a gruta molhada estremece diante dos sentidos...
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| 21
de Novembro de 2008.
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Golden Pig and
Bitches
As fotos acima pertencem à série Golden
Pig and Bitches, do estúdio de
fotografias Carioca
(Carioca é o nome do estúdio),
situado em Bucareste, na Romênia. O
estúdio trabalha em parceria com diversas
grandes agências de propaganda da Europa.
Se você quer conhecer melhor o trabalho
dos caras, é só clicar
aqui.
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| 19
de Novembro de 2008.
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O
Ateneu
Um grito súbito fez-me estremecer no leito: fogo! fogo! Abri violentamente a janela. O Ateneu ardia. As chamas elevavam-se por cima do chalé, na direção do edifício principal. Imenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da parte de cima, que parecia chegar ao céu, iluminado inferiormente por um clarão cor de cobre.
(...)
Ardia efetivamente o Ateneu. Transpus a correr a porta de comunicação entre a casa de Aristarco e o colégio.
Não havia ainda começado serviço sério de extinção. A maior parte dos criados eram licenciados por ocasião das férias; os poucos restantes andavam como doidos, incertos, gritando: "fogo!" Fui achar Aristarco no terraço lateral, agitado, bradando pelas bombas, que estava perdido, que aquilo era a sua completa desgraça! Ao redor dele pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para salvar o escritório, antes que viessem as chamas.
O incêndio principiara no saguão das bacias.
Por maior incremento no desastre, ardia também, no pátio, uma porção de madeira que ficara das arquibancadas, aquecendo as paredes próximas, ressecando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.
O susto de tal maneira me surpreendera, que eu não tinha exata consciência do momento. Esquecia-me a ver os dragões dourados revoando sobre o Ateneu, as salamandras imensas de fumaça arrancando para a altura, desdobrando contorções monstruosas, mergulhando na sombra cem metros acima. O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações, clamavam por socorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da polícia em alarma, cortante, elétrico, e o rebate plangente de um sino, a distância, como o desânimo de um paralítico que quisera vir. O fogo crescia ímpetos de entusiasmo, como alegrado dos próprios clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.
Sobre o pátio, sobre o jardim, por toda a circunvizinhança choviam fagulhas, contrastando a mansidão da queda com os tempestuosos arrojos do incêndio. Por toda a parte caíam escórias incineradas, que a atmosfera flagrante repelia para longe como folhas secas de imensa árvore sacudida. Quando as bombas apareceram, desde muito tinham começado os desabamentos. De instante a instante um estrondo prolongado de descarga, às vezes surdo, agitando o solo como explosões subterrâneas. Às vezes, a um novo alento das chamas, a coluna ardente desenvolvia-se muito, e avistavam-se as árvores terrificadas, imóveis, as mais próximas crestadas pelas ondas de ar tórrido que o incêndio despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lívidas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar pressurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, colavam-se às paredes, desapareciam por uma janela. Nas cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as cores terríveis do incêndio, moviam-se os bombeiros. Perdido completamente o lance principal do edifício: sala de entrada, capela, dormitórios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma de salvação procurava isolar o refeitório e as salas próximas, entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado, cortando o vigamento, destruindo a mobília.
Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarco, impassível sob a chuva chamuscante das lágrimas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armários despedaçados, aparelhos, quadros de ensino inutilizados, mil fragmentos irreconhecíveis de pedagogia sapecada. A frente do Ateneu apresentava o aspecto mais terrível. De vários pontos do telhado, semelhando colunas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo; às janelas superiores o fumo irrompia também por braços imensos, que pareciam suster a mole incalculável de vapores no alto. Com a falta de vento, as nuvens, acumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em vaporosos rochedos inquietos. Às janelas do primeiro andar as chamas apareciam, tisnando os umbrais, enegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho cristalino dos vidros na pedra das sacadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.
Nos lugares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fora camas de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As imagens da capela tinham sido salvas no princípio do incêndio. Estavam enfileiradas ao sereno, à beira de um gramal, voltadas para o edifício, como entretidas a ver. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antônio, com o menino Jesus ao colo, era o mais abstrato, equilibrando a custo um resplendor desproporcional, oferecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.
O trabalho das bombas, nesse tempo das circunscrições lendárias, era uma vergonha. Os incêndios acabavam de cansaço. A simples presença do coronel irritava as chamas, como uma impertinência de petróleo. Notava-se que o incêndio cedia mais facilmente sem o empenho dos profissionais do esguicho.
No sinistro do Ateneu a coisa foi evidente. Depois das bombas, a violência das chamas chegou ao auge. Do interior do prédio, como das entranhas de um animal que morre, exalava-se um rugido surdo e vasto. Pelas janelas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonizadas, via-se arder o teto; desmembrava-se o telhado, furando-se bocas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisíveis braseiros, como animados pela dor, recurvavam crispações terríveis, precipitando-se no sumidouro. No meio da multidão comentava-se, explicava-se, definia-se o incêndio.
"Que felicidade ser o desastre em tempo de férias! -- Dizem que foi proposital..." Afirmava-se que o fogo começara de uma sala onde estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam que começara simultaneamente de vários cantos, por arrombamentos do tubo de gás perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarco e aventuravam considerações a respeito das circunstâncias financeiras do estabelecimento e do luxo do diretor.
O
Ateneu
Raul Pompéia
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Resolvi reler O Ateneu
novamente, trocentos anos depois da
primeira tentativa, aos 12 anos. O
que não é a coisa errada, no
momento errado: aquilo que antes
levou um mês inteiro, agora levou
duas noitinhas. E até que desta vez
eu consegui criar uma certa simpatia
pelo pobre Sérgio, que antes me
soava tão pobre, que me dava
até vontade de vomitar.
Sou obrigado a admitir, inclusive,
que o trecho do incêndio é muito
bom mesmo.
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Raul
Pompéia
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| 17
de Novembro de 2008.
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David Bergman
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| early
this mo ... |
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| goodbye |
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David Bergman nasceu na
Tchecoslováquia, vive em NY desde
2001 e é um puta fotógrafo que já
trabalhou com uma porrada de
músicos, como Gloria Estefan,
Evanescence, Barenaked
Ladies, Avril Lavigne e Joss Stone.
Não satisfeito em fotografar um
bando de mulher gostosa, David
também publicou trabalhos em
lugares simples como Rolling
Stone, Time, Newsweek,
People, Entertainment
Weekly, Blender, USA
Today, CBS e The New
York Times.
Se você curtiu o trampo dele, conheça
seu site. Vale a visita.
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| 16
de Novembro de 2008.
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Da última
árvore para o último animal
Da
última árvore para o último animal
Cólera
Nós estávamos aqui
Antes de você, antes deles,
Quando o mundo desconhecia a violência
Nós existimos há trilênios
Alimentando a todos.
Aos poucos você foi vendo
Eles chegando com uma invenção
Usavam aqui para nos cortar
E com nossos pedaços em brasa
Se aquecer.
Então eles fizeram armas e motores
Com armas te caçavam
Com motores nos cortavam.
Você viu sua espécie aniquilada,
Você viu nossas sombras sumirem,
Água e ar, vítimas de contaminação química.
Você viu armas feitas com
Pedaços de nossos corpos,
Você viu sua pele irmã
A preço promocional na vitrine.
Eles não viram nada além do lucro.
Eles usam sua pele
Sentados sobre nossos pedaços.
Eles tem projetos milionários para
Exterminar todos nós.
Observe agora, eles já estão cegos e suicidas.
Olhe ao redor, só eu e você,
Eles morrem aos poucos e
Nada mais, nada mais podemos fazer,
Nada mais...
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Nunca postei tanta letra de música
quanto neste novembro: esta é a
quarta delas e a gente ainda está
no meio do mês. E justo eu, que
sempre achei que o povo que posta
letra de música faz isso pra
enrolar. Bem, o fato é que essas
letras todas que eu ando publicando
aqui têm a ver com meu atual estado
de espírito e com as coisas que eu
ando ouvindo. Essa composição do Cólera, um dos grupos mais
representativos da cena punk
brasileira, vale a pena ser lida,
além de mostrar que o movimento
punk não tem nenhuma relação com
a imagem que a maioria das pessoas
faz. |
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| 15
de Novembro de 2008.
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Introdução
à lógica
Jack SK.
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Pensamento
vazio
Jack SK.
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| 13
de Novembro de 2008.
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Quase sem
querer...
Quase Sem Querer
Letra: Renato Russo
Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha
Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso,
E ainda estou confuso.
Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo
E tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe.
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.
Disco
Legião Urbana - Dois,
de Julho de 1986
Mais
Legião Urbana AQUI
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Ando me sentindo exatamente como
canta esta
música, desde 1986, quando a
ouvi pela primeira vez em um
bolachão de vinil. |
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não sou da sua rua
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Só
as mães são felizes
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As
flores têm cheiro de morte?
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| 12
de Novembro de 2008.
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Carta a Theo
A quem interessar possa (e a quem não interessar também, foda-se):
Eu sou o tipo de cara que aprecia ficar quieto em um canto. Eu curto me trancar em casa e ficar assistindo DVD e enlatados, lendo livros, ouvindo música ou navegando pela
internerd. Sou capaz de passar dias assim. Se me oferecessem uma caverna no Tibete para morar, eu
iria. Bastaria que eu pudesse levar meus livros, CDs e DVDs e tivesse
internerd, tv-a-cabo e uma pizzaria delivery perto. Eu sou um sujeito acomodado. Bem, na verdade, eu sou acomodado demais. Eu sou assim, mais ou menos como um hidrante, que fica parado no mesmo lugar por séculos, esperando que uma catástrofe ocorra.
Graças a essa minha mania besta e doentia de só sair de casa quando é extremamente necessário, eu consegui a proeza de cultivar uma bursite de estimação, que me fode de tempos em tempos e me obriga a ficar ainda mais quieto do que o normal. Minha bursite de estimação faz diminuir a minha criatividade e me tira o prazer de ficar diante do computador.
Por isso, quando a minha bursite resolver ir visitar os parentes na Europa e me dar uma trégua, espero retornar com minha programação (a)normal.
Jack
Sk.
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| 11
de Novembro de 2008.
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| 10
de Novembro de 2008.
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livros letras
ventos verbos
livros letras
ventos verbos
Livros valem lavra
vestem vida
vergam vídia
veias velhas
velam ventos
Ventos levam vinte
lisos lenços
lentas luvas
limpas lousas
leves letras
Letras voam livres
vastos verdes
voltam vivos
visam vidros
vultos verbos
Verbos louvam vales
louras lendas
luzes loucas
lua longe
lustro lume
Jack Sk. |
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Diálogo
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Paciente:
Todas as manhãs preciso checar meus olhos para ver se não arranhei as córneas enquanto dormia.
House: Deus, pare. Está me enchendo de lágrimas aqui.
Paciente: Não posso chorar.
House: Nem eu. Toda manhã verifico meus olhos para icterícia. Pra ver se o Vicodin finalmente atingiu meu fígado.
Paciente: Não posso correr sem antes verificar se tem algum inchaço nos meus dedos.
House: Não posso correr.
Paciente: Garotos não podem ficar comigo por muito tempo, porque posso superaquecer.
House: Garotas não podem ficar comigo por muito tempo, porque só pago por uma hora.
Paciente: Preciso programar o alarme do relógio para me lembrar de ir ao banheiro. Sabe o quanto já me humilhei antes de pensar nisso?
House: Os banheiros ficam a 15 metros do meu escritório. Sempre que bebo água, peso os prós e contras.
Paciente: Depois de tudo que faço eu me checo: gengivas para cortes, conto os dentes, checo a temperatura, dedos e juntas para inchaço, pele por escoriações.
House: Eu levei um tiro.
House,
3ª Temporada, Episódio 60: Insensitive
- Universal Channel
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Próximo
Caso Richthofen. Caso Champinha. Caso João Hélio. Caso Silvia
Calabresi. Caso Isabella. Caso Carla
Burke. Caso Eloá. Caso Rachel Maria Lobo de Oliveira.
Próxima senha, por favor.
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Ron Mueck
Ron
Mueck, o artista australiano nascido em
1958 que produziu bonecos pra Vila Sésamo,
só não é mais animal esculpindo porque se
ele melhorar um pouco mais seus trabalhos é
provável que criem vida. É mais ou menos
como a história conta a respeito de Michelangelo,
que quando acabou de esculpir seu Moisés,
bateu-lhe violentamente com o martelo no
joelho e indagou: perché non parli?
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Hotel
Fraternité
Hotel Fraternité
Arnaldo Antunes / Aldo Fortes / Hans Magnus Enzensberger
aquele que não tem com o que comprar uma ilha
aquele que espera a rainha de sabá na frente de um cinema
aquele que rasga de raiva e desespero sua última camisa
aquele que esconde um dobrão de ouro no sapato furado
aquele que olha nos olhos duros do chantagista
aquele que range os dentes nos carrosséis
aquele que derrama vinho rubro na cama sórdida
aquele que toca fogo em cartas e fotografias
aquele que vive sentado nas docas debaixo das gaivotas
aquele que alimenta os esquilos
aquele que não tem um centavo
aquele que observa
aquele que dá socos na parede
aquele que grita
aquele que bebe
aquele que não faz nada
meu inimigo
debruçado sobre o balcão
na cama em cima do armário
no chão por toda parte
agachado
olhos fixos em mim
meu irmão
© Rosa Celeste
(UMPG Brasil) / BMG Mus. Pub. Brasil / BMG Mus. Pub. Germany
BR-RC7-06-00008
Ficha Técnica da Faixa
Arnaldo Antunes: Voz
Cézar Mendes: Violão de nylon
Daniel Jobim: Piano, vocais
Chico Salém: Violão de aço
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Ontem eu estava melancólico e
resolvi tocar violão. Toquei Hotel
Fraternité umas 15 vezes.
Essa letra do Ezsemberger
é
simplesmente foda. A tradução do
poeta Aldo
Fortes ficou perto da perfeição. E o
Arnaldo, claro, terminou colocando a
cereja. Uma das músicas mais lindas
já gravadas nos últimos anos, em
minha modesta opinião de puxa-saco
e paga-pau do trabalho do Arnaldo
Antunes e do Hanz
Magnus Ezsemberger.
Você percebe que um artista é
"o cara" quando ele
escreve tanto pra adultos quanto pra
crianças e consegue ser maravilhoso
pros dois. E esse é exatamente o
caso do Arnaldo e do
Ezsemberger.
Quem já leu os textos desses dois
artistas percebe logo de saída que
os dois pensam de forma muita
parecida e quem nunca leu nada dos
dois ou de algum deles, deveria
correr atrás desse prejuízo antes
que seja tarde demais, porque como
dizia a velha Clarice,
a vida não é de se brincar
porque em pleno dia se morre. |
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Antunes
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pequena
reflexão
As pessoas falam,
mas tem gente que nasce muda. Há quem se
diz ateu, mas que quer que Deus o acuda.
Existe pastor que foi padre e padre que
nunca rezou. Existe quem ama demais e
também quem nunca amou. Tem gente que
corre bastante e outros que usam muleta.
Há quem acenda vela pra santo e quem
acenda pro capeta. A polícia prende os
bandidos, mas tem policial que é ladrão.
Tem puta que é indecente, mas outras que
não são não. Há mães que cuidam dos
filhos e filhos que matam seus pais. Tem
gente que pensa que é gente e as que
sabem que são animais.
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Bota uma roupa
Bota Uma Roupa
(proibidão)
MC Didô
Bota uma roupa, bota, bota, bota uma roupa (2X)
Fica com a bunda toda empinada com os peitos pontudos (2X)
Nós pensa que ela é toda gostosa, mais quando ela tira a roupa (2X)
Puta, puta, puta que pariu (3X)
Cheio cheio de furunco, puta, puta, puta que pariu, cheio de
furunco, puta, puta, puta que pariu, puta, puta, puta que pariu
(2X)
Só reloginho, diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin
diguidin, Vaii!
Bota uma roupa, bota, bota, bota uma roupa (2X)
Fica com a bunda toda empinada com os peitos pontudos
Nós pensa que ela é toda gostosa, mais quando ela tira a roupa
Mais quando ela tira a roupa, mais quando... mais quando... ela tira a roupa
Só reloginho, diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin
diguidin, Vai!
Puta, puta, puta, puta, puta que pariu! Cheio cheio de
furunco, pu, pu, puta que pariu...
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Seria
óbvio demais se eu escrevesse que a
letra que você acabou de ler foi
escrita por alguém cujo Q.I. oscila
entre o de uma orquídea e o de uma
anêmona e pra quem toda perspectiva
de vida resume-se a uma boceta.
Seria óbvio demais dizer que a
consciência social do autor ainda
caminha pelas savanas apoiada nas
articulações dos dedos das mãos.
Seria fácil demais condenar tanto
quem escreve quanto quem dança uma
letra dessas.
Seria, se a questão
realmente fosse essa.
O grande problema quando o assunto
é o funk e suas letras, reside no
simples fato de que essa é a
expressão mais lógica de uma
comunidade que reage à sociedade
que a cerca com vislumbres de
civilidade e sonhos novelísticos
globais. Escrever é um ato que faz
sentido apenas para quem compreende
a necessidade desse sentido. Embora
não haja pesquisas rigorosas a
respeito, parece haver um consenso
entre diversas fontes na Internet
cujos números indicam que um brasileiro médio possui um
vocabulário ativo de cerca de duas mil
palavras. Um analfabeto típico que
vive nas
grandes favelas, cerca de mil e
quinhentas. Há quem
afirme que o vocabulário
máximo de um analfabeto em sua
língua materna seja de setecentas palavras.
A Gorila Koko,
possui mil. Estima-se que um leitor médio
seja capaz de assimilar o
significado de três mil novas palavras a partir do contexto e a extensão
de seu vocabulário está associada à capacidade
geral de leitura, compreensão e sucesso
escolar. Rá! No caixa
eletrônico, insira o seu
cartão. Inserir? Que porra
é essa? Meta, enfie, soque
o seu cartão aí no buraco da
máquina, porque ninguém insere
o pau numa boceta, as pessoas metem.
O fato é que o seu mundo não foi feito
para o funk de MC Didô. O mundo de MC Didô
não abriga o leitor médio,
tampouco aquele com capacidade geral
de leitura, compreensão e
especialmente aquele com sucesso
escolar.
O funk é tudo -- e trata de tudo --
o que é de interesse direto
daqueles que recorrem à pornografia
como diversão barata, talvez porque
uma rápida trepada entre uma
multidão suada e ensandecida seja
mais em conta do que uma insossa
sessão de cinema. O funk não
simplifica a violência mais do que
os telejornais, não vulgariza a
mulher mais do que as novelas e os
desfiles de moda. O funk não incita
as galeras à pancadaria desenfreada
mais do que as academias incitam os
babacas à pancadaria covarde e nem
perverte menores mais do que a
própria moral da sociedade que o
critica. O funk não mergulha uma
juventude já perdida nas drogas
mais do que a indústria do álcool
afoga esse mesmo pessoal em
overdoses etílicas e MC Didô não
está menos preocupado em encher os
bolsos com as parcas moedas dessa
gente do que governantes e
empresários. Sexo, drogas e
violência parecem ser a tríade
perfeita para o equilíbrio dos
hormônios, afinal não exigem muito
para serem compreendidos em suas
essências.
O funk não traz perspectivas, é
verdade. Mas a escola também não
traz e os cadernos de empregos dos
jornais também não. O funk não
educa, mas as famílias também
não. O funk não trabalha para os
jovens, mas os políticos também
não. O funk não traz redenção,
mas as igrejas também não. O funk
não faz poesia, mas a vida também
não é exatamente poética.
O crime do funk, neste caso, é
fazer com que alguém como MC Didô
consiga elevar-se ao status
de artista, quando o mundo que o
condena a dedos apontados já
decidiu que, quem nasce na favela,
não pode ascender mais do que à
posição de mestre-de-obras.
Tudo tão simples, que nem tem
graça.
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A cidade do
massacre
Haim
Nachman Bialik (ou Chaim Nachman
Bialik) nasceu na Ucrânia, em 1873,
e faleceu em Viena, no ano de 1934.
Movido pela sensibilidade que lhe
valeria a alcunha de Poeta Nacional
de Israel e temperado com os
açúcares daqueles que conheceram
os mais profundos terrores
possíveis de serem produzidos pela
alma humana, o grande poeta judeu
escreveu A cidade do massacre,
em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido
nos dias 6 e 7 de abril de 1903.
Eu não sou muito a favor de
postar textos longos, especialmente
se não forem de minha autoria. Acho
que soa mais ou menos como encher
lingüiça. Mas de vez em
quando, sou obrigado a admitir que,
quando a essência de uma proposta
pode ser resumida como "sobre
a arte de reciclar seu próprio
sangue", versos como O
cântico do calvário,
de Fagundes Varela, A
bomba atômica, de Vinícius de
Moraes, A
terra desolada, de T.S. Eliot,
O
barco ébrio, de Rimbaud e A
cidade do massacre, de Bialik,
acabam impondo-se como uma espécie
de necessidade óbvia.
Você pode tirar suas próprias
conclusões conhecendo essa obra de
Bialik... |
| A
cidade do massacre
Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios;
Com a tua mão toca,
e com os olhos da tua cara
olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale
os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos.
Vai depois às ruínas, onde
se estendem as paredes fendidas,
onde cresce o vazio e maior cresce a brecha;
Passa sobre a lareira despedaçada,
alcança as paredes quebradas
cujos tijolos queimados e estéreis,
cujas pedras carbonizadas
revelam as bocas abertas dessas feridas,
que nenhum remendo alguma vez remendará,
ou cura curará.
Ali penas afundarão os teus pés, e
tropeçarás em destroços duplamente destroçados,
pergaminhos empilhados em manuscritos.
Fragmentos outra vez fragmentados.
Não pares neste caos; segue o teu caminho.
O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento
e metade das suas flores serão penas,
que exalam o odor do sangue.
E, mortificando-te, estranhos incensos trarão.
Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera,
os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição.
Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos;
O assassino matou, as flores desabrocharam,
e depois veio o tempo ameno e o sol.
Vai depois a um quintal, observa o monte.
Sobre o monte estão dois decepados:
Um judeu e o seu cão de caça.
Golpeados com o mesmo machado, os dois,
arremessados para a mesma pilha
onde porcos buscam estrume.
Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados
para os riachos, e perder-se-ão
em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama.
O seu grito não será ouvido.
E tudo será como sempre foi.
Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos;
Observa a sombra da morte erguida entre as sombras.
Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio,
numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste.
Estas são as almas do espírito dos mártires,
Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis.
O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram
selar com o último olhar, com o último sopro,
a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes.
Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se.
O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam:
Porque razão, Senhor, e porquê?
É um silêncio que só Deus pode suportar.
Levanta então os teus olhos para o tecto;
não há lá nada, a não ser um seguro silêncio
suspenso nas traves.
Interroga a aranha no seu esconderijo.
Os seus olhos viram todas estas coisas;
E com a sua teia ela pode desenrolar um relato
horrendo aos ouvidos dos homens:
uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas,
de crânios e ossos esmagados e derramados.
De homens assassinados pendurados nas traves.
E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe
trespassada por uma lança;
De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança,
ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se.
Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações
do relato que a aranha reconta,
histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam
o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre.
Então vais implorar ao teu espírito
--
Pára, chega!
Asfixia a raiva que te sobe a garganta,
enterra estas coisas malditas,
bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure.
Depois deixarás estes lugares e partirás
-- olha! --
A terra é como era, o sol brilha ainda:
É um dia como qualquer outro.
Desce depois às adegas da cidade,
aqui violaram as virginais filhas das gentes,
onde sete bárbaros se atiraram às mulheres,
a mãe à vista da filha,
a filha à vista da mãe,
antes da matança, durante a matança, depois da matança.
Toca com teus dedos o forro manchado,
sente a almofada ensangüentada,
foi aqui que as bestas selvagens
com machados sangrentos nas patas
obrigaram as tuas filhas a sucumbir...
Esmagadas na vergonha, viram tudo;
Não arrancaram os olhos;
Não esmagaram a cabeça contra paredes.
Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações:
Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia!
Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos,
Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram
os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos,
escondidos e agachados ¿ os filhos dos Macabeus!
A semente de santos, a prole dos leões!
Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação,
tanto santificaram o Meu nome!
Fugiram a fuga dos ratos,
o correr das carochas foi a sua fuga;
morreram como cães e morreram!
E, na manhã seguinte, depois da noite terrível
o filho que não foi morto encontrou no chão
o cadáver desprezado do seu pai.
Porque razão, Senhor, e porquê?
Exausta e gasta, uma escura Shekinah
Corre para cada canto sem encontrar descanso;
Deseja chorar, mas o choro não vêm;
Quer rugir; emudeceu.
Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida
sobre as sombras dos mártires mortos,
as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra.
Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão;
Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue;
Tardando ali serás uno com a dor e a angustia
e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias.
Então, no dia da tua própria desolação
parecerá um refúgio,
pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio,
o assombrar de um pesadelo,
Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo
quererás proclamá-lo, falar dele
mas os teu lábios não encontrarão palavras.
Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério.
Não deixes que homem algum te veja; chega só,
Um lugar de campas santas e pedra-mártir.
Chega-te perto do solo revolvido e fresco.
O silêncio tomará conta de ti,
O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha,
mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos.
Endurecerei o teu coração,
não te permitirei um suspiro.
Olha, vê os bezerros mortos, massacrados;
Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço?
Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre!
Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda.
Quando à minha porta vieres buscar recompensa,
abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios.
Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós.
Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu
sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis;
As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa.
Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te
do cemitério aos teus irmãos vivos,
e virás, com os da tua própria geração,
à sinagoga, e no dia do jejum,
para ouvir o seu grito de agonia,
as suas eternas lágrimas.
A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé,
e serás movido, trémulo, pelo medo.
Assim geme um povo perdido.
Olha nos seus corações ¿ observa o triste vazio
onde nem a vingança consegue crescer,
mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam
altas maldições, ou juramentos de blasfémia.
Fala com eles, implora-lhes raiva!
Deixa que contra mim levante a mão ultrajada,
Deixa que exijam!
Exijam retribuição pelos humilhados
de todos os séculos e todos os tempos!
Que se atirem punhos como pedras
Contra os céus e o Trono celeste!
E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas;
Não deites nem mais uma gota no seu cálice.
Onde tocasses encontrarias uma ferida,
as suas carnes são todas chaga.
Porque com resignação enfrentaram a dor
e com a humilhação fizeram pazes,
de que lhes servirá a tua consolação?
São coitados demais para evocar em ti desprezo.
São arruinados demais para evocar em ti compaixão.
Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição,
enlutados e esmagados sob o peso que os oprime.
Parte então das suas casas e lares
podridão nos ossos, corrupto coração.
E vai até à estrada,
encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa,
suspirando e gemendo, às portas dos ricos
proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte,
A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos,
um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos.
E todos têm olhos que são os olhos de escravos,
Escravos açoitados em frente dos donos;
cada um suplica, cada um deseja:
Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado.
Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado!
E assim compaixão imploram.
Porque és agora o que sempre foste
Como estendeste a mão
assim a estendes,
e como foste desgraçado,
assim desgraçado és.
Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos!
Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda o seu grito amargo à tempestade!
Haim
Nachman Bialik |
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Rosebud
A
ghost sign
Rosebud,
Falls
County, North Central Texas, Hwy 77
Photo courtesy Barclay Gibson, August 2006
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Novo layout
Este novo layout, que na verdade não é
exatamente o que podemos chamar de novo,
uma vez que não passa de uma releitura do
desenho utilizado nos meses de setembro e
outubro, foi baseado na obra The
silence of the lambs, do artista
gráfico romeno Teodoru
Badiu.
No mais, nada de mais.
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Toda a
proposta deste blog está resumida em seu título e
subtítulo: "Blood Pack
- sobre a arte de reciclar seu
próprio sangue". Se você não entendeu o
que isso significa, é provável que não entenda mais
nada do que acontece por aqui. Aliás, se você não
entendeu isso, é bastante provável também que nem
esteja lendo esta nota, afinal de contas, quem lê as
letras miúdas nos contratos, não é mesmo? |
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Blood
Pack é escrito e produzido por
Jack Skellington. Você pode reproduzir os meus textos
onde quiser, mas cite a fonte. Se você gostou do que
leu aqui, escreva um e-mail
comentando, pra gente conversar. Se não gostou, nem perca
tempo tentando me azucrinar, pois eu não vou estar nem
aí pra tua crítica. Se curtiu o blog, indique-o para os
seus inimigos. Se não curtiu, vá tomar no cu e não volte
mais aqui, que você ganha mais. |
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Since September 17, 2007
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