Sexo, erotismo, pornografia, fetiches. Violência, criminologia, parafilias, patologias. Psicanálise, antropologia, teologia, literatura, arte, fotografia, filosofia, cultura, comportamento etc. Se você é um conservador, este não é um lugar pra você. 
    Este é um blog sobre o lado vermelho da vida, um blog sobre
a minha vida, sobre a minha arte
e espero que você goste bastan- te daqui.  Mas se não gostar, também, foda-se.

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27 de Novembro de 2008.
 A civilização avançada envolve problemas árduos. Por isso, quanto maior o progresso, mais está ameaçada. A vida está cada vez melhor; porém, evidentemente, cada vez mais complicada."

José Ortega y Gasset
Filósofo espanhol

Exceptio veritatis  - revista e corrigida

    Antes da leitura do capítulo abaixo, é aconselhável ler a Parte um, In intinere, que inicia a trama e ajuda a delinear o cenário. Para efeitos de comparação, a primeira versão da Parte dois, abaixo 

Exceptio veritatis

    A imagem tridimensional do corpo -- ou do que sobrara dele -- projetava-se quase como um objeto sólido no meio do gabinete do Comandante da Primeira Frota Estelar dos Estados Terrestres Unidos. Assemelhava-se a uma múmia enegrecida, resgatada de dentro de um aspirador e pisoteada por uma manada de búfalos. Ao lado da múmia nua, via-se o uniforme azul-claro, se é que aquele monte de farrapos poderia algum dia ser chamado de uniforme. As mangas ostentavam a patente de primeiro-tenente. O velho Comandante inclinou o corpo para frente e deu a volta na projeção que partia do pequeno disco anexado ao relatório e colocado no chão. Parecia hipnotizado.

    -- Fantástico! Às vezes tenho a impressão de que poderia segurar e sentir o peso de um desses hologramas... Mas bem, apesar do péssimo estado não vejo porque esse pobre diabo não poderia ter sido vítima de um acidente. Você pode me mostrar onde estão as marcas que levaram os peritos a concluírem de que se trata de um assassinato? 

    O Primeiro-Imediato tocou o holograma com o dedo, na testa do corpo e em seguida realizou um movimentou circular, fazendo com que a imagem rotacionasse 180º e deixando o cadáver de barriga para baixo.

    -- Aqui está... O Senhor consegue perceber esses três pequenos pontos, que parecem formar um triângulo? -- Disse o jovem, apontando para a nuca do corpo -- Eu sei que as condições destes restos estão péssimas, mas os furos foram encontrados depois que o legista percebeu isto, veja. -- Tocando com os dois indicadores na nuca da projeção e afastando os dedos como se estivesse esgarçando um tecido, teve acesso à imagem do interior do crânio necropsiado -- Vê? nenhum sinal do cérebro, apenas alguns dos nervos cranianos... olhe, um nervo óptico aqui, pendente... e aqui, os vestígios do que sobrou dos nervos raquidianos, as terminações nervosas da medula espinhal, descendo pelas vértebras... -- Suas mãos indicavam o caminho pelo qual os olhos deveriam correr durante sua explicação. 

    -- O cérebro foi vaporizado! -- Arrematou o Comandante, com os olhos fixos no holograma e manifestando sua opinião em um dos poucos assuntos do dia no qual não era um completo ignorante -- Foi atingido por uma Colt laser 4500! Rapaz essa arma é um absurdo! Não é qualquer um que sabe como usar uma dessas. Um errinho e vaporiza-se tudo no trajeto dos lasers até uma distância de seis mil metros! Três feixes de lasers a 4.500º Celsius entrando por sua cabeça a 5 milionésimos de segundo! Não há orifícios de saída e os orifícios de entrada são praticamente imperceptíveis! O atirador sabia o que estava fazendo, esse era dos bons! 

   -- Exatamente. A arma foi muito bem calibrada, o que leva a crer que o crime foi premeditado. O disparo deve ter ocorrido de muito perto, pois não há traços de outras vaporizações no Silo. Os lasers atravessaram-lhe o crânio deixando esses três furos e vaporizaram completamente seu tecido cerebral, fotocoagulando todos os vasos sangüíneos. Nenhuma gota de sangue foi derramada. Ele provavelmente não chegou a perceber que iria morrer, sequer teve tempo de gritar. O mais incrível é imaginar o cérebro vaporizado escapando-lhe pelos orifícios da cabeça. Deve ter sido uma cena bizarra! -- Confirmou o Primeiro-Imediato, não deixando escapar uma pequena dose de excitação ao imaginar a cena. 

    -- O que mais diz o relatório? O que há de relevante, que eu deva saber, na sua opinião? -- Perguntou o Comandante, deixando claro que não tinha a menor intenção de ler as 1.896 páginas digitais  que recebera. Este sujeito aqui ainda vai nos dar muita dor-de-cabeça, guarde muito bem isso, menino. A você, por ser o oficial responsável pelo Cruzador Espacial que serviu de cenário a essa loucura, e a mim, por ser o responsável por todas as espaçonaves que fazem parte da Primeira Frota...

    -- Bem, os relatórios dizem que não foi possível conhecer a identidade do corpo através do chip de identificação subcutâneo e nem através de análise de DNA -- Respondeu o Primeiro-Imediato, rotacionando a imagem holográfica do cadáver mumificado a sua posição original. 

    -- Nenhum resultado com DNA e nada com o chip de identificação subcutâneo? Como isso é possível?

    -- Os nanorobôs, outra vez. Depois de terem extraído cada uma das moléculas de água do corpo, os nanorobôs presentes no substrato entraram na segunda fase de processamento. Você sabe, o corpo humano é feito de átomos, assim como o nosso DNA e tudo o que conhecemos... Eu peso cerca de 70kg e 43kg são apenas átomos de oxigênio. Os átomos de hidrogênio são responsáveis por cerca de 7kg do meu corpo. Eles estão entre os átomos mais comuns em nossas moléculas de DNA. Você sabe também que um átomo de oxigênio mais dois de hidrogênio resultam em uma molécula de água. Tudo o que os nanorobôs fizeram foi seqüestrar os átomos de oxigênio e de hidrogênio restantes nesse corpo e reagrupá-los na forma de novas moléculas de água para enviá-las ao sistema de drenagem do Silo. Este sujeito que você está vendo aqui é praticamente um pedaço de carvão. Originalmente o peso estimado em função da altura era de cerca de 90kg. Deve haver aí uns 18kg de carbono e algo em torno de 4,5kg de nitrogênio... Há também cálcio, fósforo, enxofre, potássio, sódio, magnésio... Mas eu não acho que chamar nosso garoto aqui de carvão está muito longe da sua realidade atual...

    -- Mas como isso afetou as informações no chip de identificação? As informações presentes nos chips não são físicas, são? -- Indagou o Comandante.

    -- As informações não. As informações são basicamente energia. Mas o meio onde permanecem é um meio físico. No caso dos chips de identificação subcutâneos, as informações ficam armazenadas em um fluído supercondutor denominado silano. O silano é um composto molecular formado por um átomo de silício e três de hidrogênio. Com a fragmentação das moléculas do fluído supercondutor pelos nanorobôs, toda a informação nele armazenada se perdeu. O chip desse corpo foi vasculhado pelos especialistas em recuperação de dados digitais e o resultado foi negativo.

    -- Precisamos rever o mecanismo de ação desses malditos nanorobôs! -- O Comandante já começava a dar sinais de impaciência, afinal de contas tudo o que ele sabia a respeito do laudo cadavérico não parecia lhe dar muitas esperanças de enxergar o caso elucidado. Suas bochechas gordas já se mostravam ligeiramente avermelhadas por baixo da barba branca cerrada.

    -- Acho mais simples pararem de executar pessoas dentro de nossos Silos Biológicos. Essa tecnologia presente em nossos nanorobôs é exatamente aquilo que podemos chamar de tirar água de pedra. É o tipo de tecnologia próxima da magia, é uma tecnologia que esbarra na fronteira dos milagres... É capaz de salvar vidas -- Falou com calma o Primeiro-Imediato, que continuou -- Além do mais, os nanorobôs não foram capazes de vencer os peritos da Estação Internacional de Europa...

    Um sorriso de esperança iluminou a face do Comandante e o Primeiro-Imediato continuou:

    -- Os peritos foram capazes de nos dizer muito mais do poderíamos imaginar olhando para esse... para esse... -- Pareceu imaginar uma palavra para denominar o corpo destruído e arrepender-se dela, retomando o discurso num tom mais sério -- para esse corpo. Para começar, trata-se de um humano criado na Terra. O que sobrou dos ossos e dos feixes musculares, assim como a ausência de quaisquer vestígios de implantes cirúrgicos para compensação de gravidade, prova que não se trata de um humano criado em Marte, em Mercúrio ou em uma das colônias humanas na Lua, em Europa, Ganímedes, Enceladus ou Titan. Também foi identificado como caucasiano. A análise de uma amostra da íris de um dos globos oculares ressecados apresentou traços suficientes, embora degradados, de melanina e feomelanina cujas proporções convenceram os peritos de que os olhos eram verdes. As análises realizadas em fios de cabelos e em pêlos não deixam dúvidas de que se tratava de um indivíduo ruivo... O relatório diz que "a incidência de traços degragados do pigmento feomelanina, da ordem de 97,355678%, é determinante para que se possa assegurar como ruiva a cor dos cabelos e pêlos analisados"... 

    -- Não sei se devemos nos animar com essas informações, meu caro... Me parecem uma descrição um tanto quanto vaga de quem possa ter sido o antigo dono deste corpo triturado -- disse o Comandante, espalmando as mãos em direção à imagem que ainda se projetava e arqueando as sobrancelhas.

    -- Sim, mas eu não terminei... Os peritos foram muito além disso. Na tentativa de identificar o corpo, adivinhe o que eles descobriram? -- Perguntou o Primeiro-Imediato, apontando para a cópia do relatório em suas mãos e em seguida para o relatório em cima da mesa de seu superior -- Ele não era um primeiro-tenente. A patente do uniforme não corresponde a sua posição na hierarquia da Frota Estelar. Não era um primeiro-tenente, era, com a mais absoluta certeza, um Oficial-Superior... 

    -- Você só pode estar de brincadeira! -- Falou o Comandante, elevando a voz e voltando-se para pegar o relatório para olhá-lo com seus próprios olhos -- De onde veio essa?

    -- Ele não possui quaisquer traços de padrões papiloscópicos nas solas dos pés. A situação se repete nas palmas das mãos e em cada um dos vinte dedos. Isso significa que ele não tem impressões digitais, nem de palmas, nem de solas. Apenas os Oficiais-Superiores são submetidos à eliminação desses padrões... É um dos procedimentos mais tradicionais na admissão de Oficiais-Superiores na Frota Estelar! -- Afirmou o Primeiro-Imediato, dirigindo-se a um dos pés ressecados da imagem holográfica e fazendo com que ela girasse num ângulo ascendente que levou a sola do pé esquerdo do corpo projetado até perto do nariz do Comandante -- Olhe, assim como nós! -- disse ele, expondo a própria mão e fazendo com que o velho Comandante olhasse para si mesmo e lembrasse de que também ele não possuía nenhum vestígio de impressões digitais ou nas palmas.

    -- O que um oficial-superior poderia desejar dentro de um Silo Biológico vestido com o uniforme de um oficial-subalterno? -- Ralhou indignado o velho homem já acostumado às facilidades que sua alta patente lhe proporcionavam desde sempre.

    -- Discrição -- Respondeu o Primeiro-Imediato -- Queria estar ali sem chamar qualquer atenção. Mas optou pelo posto mais alto dentro da hierarquia dos oficiais-subalternos, para não precisar prestar contas aos outros oficiais menores com os quais encontrou pelo caminho. Evitou a patente de Capitão-Tenente pois os oficiais-intermediários já começam a gozar de certa visibilidade, a presença deles é muito menos esperada numa área daquelas.

    -- Bem, nesse caso a descrição dos peritos já pode gerar uma boa combinação de possíveis nomes para esse corpo entre o Alto-Comando da Frota Estelar! -- Argumentou o Comandante, como se estivesse ele próprio sugerindo algo a respeito do qual ninguém até então havia pensado.

    -- Sim, pode. Mas eles fizeram melhor -- Rebateu o jovem, colocando seu relatório sobre uma cadeira, focado no holograma enquanto se abaixava para que seus olhos ficassem muito próximos à face carcomida daquela projeção -- eles reconstituíram o rosto deste homem a partir dos padrões craniométricos e do que restou dos tecidos faciais...

   Os olhos do Comandante arregalaram-se e sua pupila dilatou, como se prenunciasse a explosão de um sol e da qual não seria capaz de escapar. Moveu seu corpo pesado para trás, apoiando a mão direita com força sobre sua mesa ao mesmo tempo em que o Primeiro-Imediato passava uma das mãos sobre a face do corpo projetado, revelando a reconstituição realizada pela equipe de peritos forenses da Estação Internacional de Europa.

    -- Yoshua Ben Zeev, Tenente-Brigadeiro responsável pelos estudos científico-militares na Estação Geodésica Amundsen-Scott, no Pólo Sul terrestre e nomeado para o cargo pelo Governo depositário da Organização dos Estados Terrestres Unidos após a ratificação do Tratado Antártico, que oficializou a militarização de toda a área. Eis o nosso homem! -- Disse o Primeiro-Imediato em um só fôlego, continuando após respirar -- Seja lá o que está acontecendo lá embaixo na Terra, mais precisamente na Antártida, com certeza tem relação com o incidente no Cruzador Espacial Centaurus. 

    O Comandante precisou se sentar. Como irmão de patente daquele Tenente-Brigadeiro assassinado, ressecado e destruído bem a sua frente e consciente do alto grau de sigilo de todos os assuntos que diziam respeito ao Pólo Sul terrestre após a ratificação do Tratado Antártico há cerca de 6 anos antes, ele sabia que realmente estavam diante de um sério problema. 

    E desta vez, quem permaneceu sem entender nada foi o jovem Primeiro-Imediato.

TO BE CONTINUED...

 

       21h48min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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26 de Novembro de 2008.
 A experiência é o nome que damos aos nossos erros."

Oscar Wilde
Escritor irlandês

Níveis de linguagem

    A proposta de escrever um conto de ficção-científica policial e publicá-lo na Internerd aos poucos, em pequenas partes, surgiu de uma idéia que eu tive há algum tempo, de descobrir até que ponto um roteiro originalmente pré-estabelecido pode acabar sendo alterado em virtude das opiniões e reações de leitores que não conhecem o final já planejado. Achei que seria uma boa oportunidade de testar se algumas soluções que para mim soam interessantes, mantém o mesmo status junto ao leitor.

    Após conversar com algumas pessoas a respeito do capítulo postado ontem, causou algum incômodo o fato de que os diálogos ficaram técnicos demais. Na parte um, In intinere, a conversa flui entre uma personagem com conhecimento científico e outra leiga no assunto. Já na parte dois, Exceptio veritatis, a conversa ocorre entre um grupo de especialistas. Enquanto na parte um, o leitor sente-se integrado ao diálogo, na parte dois, sente-se excluído dele. As duas soluções, que caminham em direções opostas, demonstrou que as pessoas são mais simpáticas à presença do leigo do que à presença dos especialistas. 

    Pra que as pessoas que eventualmente se interessarem por esta minha proposta, vou postar, em breve, uma nova versão da parte dois, mantendo os mesmos conceitos já apresentados mas desta vez com um novo núcleo de personagens. Como um mesmo assunto admite um diálogo em diferentes níveis de linguagem, dependendo de quem conversa e com quem, a alteração das personagens conduzirá os diálogos a um novo modelo, obrigando a alteração do nível de linguagem técnico para outro que melhor se adapte à situação descrita.         

 

       16h01min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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25 de Novembro de 2008.
 Quem julga caçar é caçado."


Jean de La Fontaine
Fabulista francês

Sci-Fi (Parte Dois) - Exceptio veritatis

Exceptio veritatis

    O corpo -- ou o que sobrara dele -- repousava sob a bancada. Assemelhava-se a uma múmia resgatada de dentro de um aspirador e pisoteada por uma manada de búfalos. Ao lado da múmia nua, repousava o uniforme azul-claro, se é que aquele monte de farrapos poderia algum dia ser chamado de uniforme, ostentando a patente de primeiro-tenente. Quatro homens observavam, absolutamente calados, os restos daquele infeliz. A identidade de quem quer que tenha sido aquele homem assassinado era o que ocupava suas mentes naquele momento. 

    -- Quais foram os resultados da análise do chip de identificação subcutâneo? -- Questionou o Primeiro-Imediato ao perito especialista em recuperação de informações digitais.

    -- Digna de desespero -- Respondeu o homem, que continuou -- Você sabe que toda tecnologia de armazenagem de dados nesse chips está baseada nos supercondutores de silano, não sabe?

    O Primeiro-Imediato fez que sim com a cabeça e o perito continuou:

    -- Então... Depois de terem extraído cada uma das moléculas de água do cadáver, os nanorobôs presentes no substrato entraram na segunda fase de processamento, partiram para o processo de reestruturação molecular... começaram a seqüestrar os átomos de oxigênio e de hidrogênio presentes no corpo e a reagrupá-los na forma de novas moléculas de água para enviá-las ao sistema de drenagem do silo. Você sabe, um oxigênio mais dois hidrogênios resulta em água. Isso simplesmente desmantelou cada uma das moléculas de silano do chip de identificação. É um processo extremamente agressivo. Os nanorobôs abordaram cada molécula de silano do chip e a fragmentaram... pá! pá! pá! pá! pum! Pronto, e agora a pobre molécula de silano foi reduzida a um átomo de silício e quatro de hidrogênio. Os hidrogênios vão, o silício fica. Sobrou todo o silício, mas os dados armazenados no fluído supercondutor... pfffffff... já eram. Não há engenharia-reversa que os reconstitua. Talvez os nanorobôs tenham nos apresentado o calcanhar-de-aquiles da tecnologia dos supercondutores de silano. 

    -- Isso significa que podemos esquecer o Plano B... Se até os silanos do chip foram desmantelados, imagino as condições das moléculas de DNA. -- Manifestou-se outro perito, numa voz grave.

    -- Posso lhe assegurar de que quanto ao DNA que um dia esteve aqui, sobraram carbono e nitrogênio que não acaba mais, mas DNA propriamente... já não apostaria minhas férias nisso -- Completou o especialista em recuperação de dados, em tom cínico. 

    -- Quais as chances de obtermos ao menos uma amostra de DNA mitocondrial desse sujeito? Se obtivermos uma minúscula amostra que seja, um fragmento infinitesimal... Podemos amplificá-lo e seqüenciar os pares-base que mantém a dupla-hélice coesa... Podemos reconstruir o fragmento a partir disso... Mesmo que consigamos obter um simples alelo, já será muito mais do que temos agora, já teríamos um ponto de partida, uma luz. Poderíamos localizar prováveis parentes no banco de dados genético da Frota Estelar -- Rebateu o perito de voz cavernosa.

    -- Não posso lhe dizer com certeza absoluta quais são nossas chances exatas, mas posso afirmar que certamente necessitaríamos de muito mais tempo para talvez obtermos essa amostra do que dispomos. É verdade que ainda há muito hidrogênio e muito oxigênio nesse corpo, já que ele não foi totalmente absorvido pelo substrato. O sistema de manutenção robotizada semanal das equipes de engenharia ambiental interrompeu o processo assim que o localizou. Mas mesmo considerando isso e considerando também que há infinitamente mais DNA em um organismo do que silano em um chip, ainda assim, as chances me parecem muito baixas. O processo de seqüestro de hidrogênio e oxigênio realizado pelos nanorobôs não é exatamente aleatório. Pode nos parecer aleatório em virtude da complexidade imposta ao padrão de coleta pelo James Joyce, mas seguramente não é. Não é mesmo. O DNA é composto basicamente por adenina, guanina, citosina e timina. Pela ação dos nanorobôs no chip e pelas características moleculares do silano, eu apostaria no fato de que as moléculas com maior incidência, através de redundância, dos átomos buscados, foram as primeiras a serem abordadas... Silano, três hidrogênios... Em comparação... Adenina, cinco hidrogênios... Guanina e Citosina, cinco hidrogênios e dois oxigênios cada... E a timina... Seis hidrogênios e dois oxigênios. Isso me parece um bom padrão de ocorrência atômica em redundância... Aposto que devido à quantidade de hidrogênios e oxigênios que possuem, as moléculas de DNA começaram a ser processadas antes dos silanos, talvez dois ou três dias antes... 

    O Primeiro-Imediato, que havia desviado sua atenção da conversa, interrompeu a discussão sem ao menos se dar conta:

    -- Ele não era um primeiro-tenente. A patente do uniforme não corresponde a sua posição na hierarquia da Frota Estelar. Não era um primeiro-tenente, era um Oficial-Superior... No mínimo um Capitão-de-Corveta. Talvez um Comodoro, quem sabe até mesmo um Almirante. Mas não um primeiro-tenente, com certeza -- Enquanto falava, observava atentamente uma das plantas dos pés do corpo sobre o balcão. Parecia ter chegado ali naquele momento, parecia ter se esquecido de tudo o que havia sido dito dentro daquele laboratório até então.

    Os três peritos entreolharam-se e inclinaram-se ao lado do Primeiro-Imediato com os olhos fixos na sola do pé esquerdo do cadáver mumificado, que ele examinava atentamente.

    -- Vejam, sem quaisquer traços de padrões papiloscópicos nas solas dos pés. A situação se repete nas palmas das mãos e em cada um dos vinte dedos. Apenas os oficiais-superiores são submetidos à planificação dos padrões papiloscópicos -- Afirmou o Primeiro-Imediato, largando o pé ressecado e expondo as próprias mãos, também planificadas e sem nenhum vestígio de impressões digitais ou nas nas palmas -- O que um oficial-superior poderia desejar dentro de um Silo Biológico vestido com o uniforme de um oficial-subalterno?

    -- Discrição -- Falou o terceiro perito, que até então não havia se manifestado -- Queria estar ali sem chamar qualquer atenção. Mas optou pelo posto mais alto dentro da hierarquia dos oficiais-subalternos, para não precisar prestar contas aos outros oficiais menores com os quais encontrou pelo caminho. Evitou a patente de Capitão-Tenente pois os oficiais-intermediários já começam a gozar de certa visibilidade, a presença deles é muito menos esperada numa área daquelas. 

    O jovem Primeiro-Imediato responsável pelo cruzador-espacial que havia servido de cenário para aquele crime bizarro exibiu uma face iluminada:

   -- E também já sei como vamos identificar esse homem -- disse, mordendo o lábio inferior enquanto segurava a cabeça do homem desconhecido -- vamos nos basear nos padrões craniométricos e no que restou de tecido na região e reconstituir sua face. Em seguida vamos comparar o rosto obtido ao banco de imagens da Frota Estelar. Esse homem vai aparecer em alguma ficha, tenho certeza absoluta.

    Como se tivessem sido acionados por máquinas de choque, os três peritos começaram a se movimentar para dar início à proposta do Primeiro-Imediato, que concluiu, extraindo daquela cabeça estéril um tufo de cabelos brancos e quebradiços que mais parecia um chumaço de fios sintéticos:

    -- Eu apostaria como se trata de um caucasiano, mas vamos identificar a cor mais provável de sua pele e de seus pêlos analisando como este cabelo interage com alguns tensoativos e submetendo a amostra à microscopia eletrônica.

TO BE CONTINUED...

 

       20h58min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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24 de Novembro de 2008.
 Na minha opinião, o crime perfeito existe."


Edgar Allan Poe
Poeta norte-americano

Sci-Fi (Parte Um) - In intinere

In intinere

    -- Mas há quanto tempo ocorreu o acidente? -- Perguntou o Comandante da Primeira Frota Estelar da Organização dos Estados Terrestres Unidos.

    -- Os peritos da Estação Internacional de Europa estimam em cerca de 96 horas terrestres. -- Respondeu o jovem Primeiro-Imediato do Cruzador Espacial Centaurus.

    -- Baseados em quê? -- Voltou a indagar o Comandante, visivelmente incomodado com sua própria dificuldade em entender a situação. Desde que fora criada, há mais de três séculos, era o primeiro acidente do tipo registrado na Primeira Frota.

    -- Baseados nos exames entomológicos realizados no corpo encontrado no Silo Biológico 1. De acordo com os peritos, a análise da fauna cadavérica indicou a presença de vespas parasitas, larvas de Staphylinidae e de Scarabaeidae.

    -- Você está me dizendo que a estimativa se deu baseada em exames entomológicos? Está me dizendo que existem insetos dentro no Centaurus? Os suportes de vida das espaçonaves da Primeira Frota não estão sendo adequadamente esterilizados? -- O Comandante não estava entendendo absolutamente nada. Quanto mais o Primeiro-imediato respondia a suas indagações, mais ignorante ele se sentia. Suas dúvidas manifestavam-se em seu gabinete como a lendária Hidra de Lerna: para cada cabeça cortada, duas novas cresciam. As dúvidas constantes e a absoluta ignorância quanto aos assuntos mais banais vividos pelos oficiais diariamente eram o maior problema dos Comandantes, mestres nas relações político-estratégicas mas verdadeiros boçais científicos. Percebendo o mal-estar, o Primeiro-imediato tomou a iniciativa de explicar um pouco melhor a situação:

    -- Todos os sistemas de suporte de vida das espaçonaves da Primeira Frota permanecem funcionando dentro dos mais perfeitos padrões. Não é esse o problema. Se me permite, Comandante, os insetos tratam-se de uma pequena necessidade ecológica. O Centaurus é o Cruzador Espacial com maior autonomia de vôo já desenvolvido pela Terra, um dos mais eficientes da linha, podemos afirmar sem receio, entre todas as civilizações da Federação. Podemos permanecer 25 anos sem necessidade de reabastecimento, com uma tripulação de 1.250 homens. Os insetos são agentes essenciais para essa conquista.

    O Comandante franziu uma das sobrancelhas e reclinou-se em sua cadeira.

    -- Por favor, prossiga. -- Disse ao Primeiro-imediato, que continuou:

    -- O suporte de vida do Centaurus conta com dois Silos Biológicos. O Silo Biológico 1, o Plantae, que é o que nos interessa neste momento, dedica-se à base alimentar de nosso ecossistema artificial e possui 5.000 acres de plantações, escalonados em 10 níveis. É muita coisa, muita coisa mesmo, em um espaço cúbico razoavelmente restrito. Abaixo do primeiro nível, possuímos 12 biotérios, onde nossos engenheiros ambientais mantém rígido controle sobre a criação de animais necessários. Sabe como é, minhocas, por exemplo. Mas as minhocas são apenas os animais mais óbvios. Também necessitamos de alguns insetos para que a ordem se mantenha no Silo Biológico. Infelizmente, não há tecnologia disponível em nenhuma civilização conhecida, capaz de eliminar completamente a ação de pragas. Além disso nosso controle de pragas não é feito a base de manipulação genética desde os acidentes com transgênicos nos primeiros cruzadores espaciais, há 200 anos. Para isso nos valemos de alguns insetos e as vespas parasitas encontradas no cadáver são extremamente importantes no controle da população de lagartas-do-milho, por exemplo. O ataque de uma dessas lagartas a uma folha de milho, resulta na secreção de uma série de substâncias pela planta, que atraem especificamente as vespas parasitas, que por sua vez colocam seus ovos dentro das lagartas vivas. As larvas da vespa parasita então devoram as lagartas literalmente, de dentro pra fora, até eclodirem. -- Os olhos do Comandante não piscavam e sua boca deixou escapar uma dobrinha de asco. -- Da mesma forma, os estafilínideos, os responsáveis pelas larvas de Staphylinidae no corpo -- Prosseguiu o Primeiro-imediato -- são extremamente importantes, em primeiro lugar porque algumas espécies colaboram com a decomposição de restos de plantas, flores e até de pólem... restos de matéria vegetal em geral. Em segundo lugar, porque outras espécies de estafilínideos mantém o equilíbrio das populações de outros insetos e também de caracóis. Nossos últimos amigos citados do relatório, responsáveis pelas larvas de Scarabaeidae, pertencem à família dos escarabeídeos. Eles são nossos velhos conhecidos escaravelhos. Alguns deles das mesmas espécies veneradas pelos antigos egípcios, aquele povo que construiu as pirâmides na Terra. Escaravelhos ajudam a decompor os excrementos dos mamíferos criados no Silo Biológico 2, o Animalia. Esses excrementos retornam ao Silo Plantae por motivos óbvios. Isso explica a presença dos três grupos de insetos citados no relatório. Mas quer saber da maior? -- Perguntou o jovem ao Comandante, esboçando um sorriso sarcástico e em seguida cerrando um dos olhos e mordendo os lábios -- Quer saber porque esses insetos, que normalmente surgem em um cadáver apenas depois de um a três anos, quando a carcaça geralmente apresenta o tegumento já completamente seco, foram encontrados em um cadáver com intervalo pós-morte estimado em meras 96 horas pelos peritos? 

    O Comandante, ainda de olhos arregalados e manifestando surpresa, gesticulou um sim com a cabeça, parecendo contagiado pela exposição quase teatral.

    -- Porque os substratos que mantém vivas todas as plantas do Silo Biológico Plantae contam com um dos mais perfeitos sistemas de reciclagem e re-captação de água que eu já vi. Os substratos possuem bilhões... não... possuem trilhões de nanorobôs que atuam como bombas microscópicas, controlados um-a-um pelo Cérebro-eletrônico do Centaurus, o James Joyce. Esses nanorobôs são capazes de extrair cada molécula de água em contato inerte com os substratos e considerada dispensável para o suporte de vida vegetal do Silo para encaminhá-la diretamente aos dutos de drenagem. Nosso cadáver foi literalmente drenado pelo substrato até os ossos. O infeliz não chegou a cheirar mal nem um pouquinho só. Não fosse pelo sistema de manutenção robotizada semanal, realizado pelas equipes de engenharia ambiental, o corpo todo teria sido inteiramente absorvido pelos substratos e transformado em fertilizante sem que ninguém sequer percebesse. Tremendo azar não ter morrido em outro lugar.

    Fez-se um silêncio. O final da última frase, "morrido em outro lugar", não poderia ser menos apropriado para o caso, uma vez que conotava uma morte natural. O relatório dos peritos era bem claro em todos os termos e explicações que demonstravam que o tripulante encontrado seco no Silo Biológico 1 do Cruzador Espacial Centaurus da Primeira Frota Estelar dos Estados Terrestres Unidos não fora acidental e muito menos, natural. 

    Ele não havia morrido. Havia sido assassinado.

TO BE CONTINUED...

 

       22h06min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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23 de Novembro de 2008.
 Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por mantimento aos habitantes do deserto."

Salmos
74:14

O vazio dentro da gente

    O vazio dentro da gente é uma coisa estranha. O vazio dentro da gente é uma ausência óbvia, mas diferente das outras ausências porque dói. Dói mais ou menos como dói como a fome, mas é como se fosse uma fome que toma o corpo todo. Toma o corpo todo como se fosse a calmaria que antecede as grandes tempestades. O vazio dentro da gente é uma coisa estranha, porque traz a sensação de que a natureza inteira está se unindo para explodir lá dentro, em uma daquelas explosões que não deixam pedra sobre pedra, que engole cada órgão como se fossem marinheiros desesperados. O vazio dentro da gente evoca uma guerra interna onde nada mais coopera e tudo mais entra em desacordo. Evoca os fantasmas que sempre estiveram escondidos nos lugares mais escuros.

    O vazio dentro da gente é uma coisa tão estranha, que mesmo sendo dentro da gente, dá a justa sensação do contrário: dá a sensação de que é a gente que está dentro dele. 

 

       21h28min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Saibam todos

A partir de hoje eu serei apenas
mais um grande filho-da-puta.

E sim, a culpa é toda sua.

 

       11h41min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Bo Bartlett



Leviathan, Bo Bartlett, 2000
Oil on linen - 89 x 138 inches -Private Collection

    Bo Bartlett é um pintor norte-americano da escola realista e com uma visão modernista, cuja obra tem como foco seu olhar sobre a beleza das pessoas e das paisagens americanas. Sua formação artística foi obtida na Pennsylvania Academy of the Fine Arts

    Você pode conhecer mais a respeito do trabalho dele aqui.

 

       09h43min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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22 de Novembro de 2008.
 Que aconteceria se o universo deixasse de se expandir e começasse a se contrair?"

Stephen Hawking
Físico teórico inglês

Ouroboros

    O ardente encontro secreto da carne suada no êxtase surreal do frenesi revelado no breve instante em que a gruta molhada estremece diante dos sentidos aguçados pela sensação de prazer que brotam do sentido que se coloca em fuga feroz rumo ao sentimento selvagem e retido pelos hormônios contidos na pele tomada pela redenção surgida do fundo do poço escondido nas profundezas da alma concreta daquele que movimenta o corpo num compasso desvairado como potro arredio em luta assustada que insiste em perpetuar o momento fugaz através de líquidos viscosos gerados no ardente encontro secreto da carne suada no êxtase surreal do frenesi revelado no breve instante em que a gruta molhada estremece diante dos sentidos... 

 

       09h28min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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21 de Novembro de 2008.
 A primeira lei que a natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for."

Marquês de Sade
Escritor francês

Golden Pig and Bitches

    As fotos acima pertencem à série Golden Pig and Bitches, do estúdio de fotografias Carioca (Carioca é o nome do estúdio), situado em Bucareste, na Romênia. O estúdio trabalha em parceria com diversas grandes agências de propaganda da Europa. Se você quer conhecer melhor o trabalho dos caras, é só clicar aqui.

 

       18h09min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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19 de Novembro de 2008.
 Você não ama, você precisa… e agora você está procurando por sua próxima obra de caridade. Não sou lindo, nem encantador, nem sou legal. O que eu sou é o que você precisa… eu sou estragado."

Dr. House
Interpretado por
Hugh Laurie

O Ateneu

   Um grito súbito fez-me estremecer no leito: fogo! fogo! Abri violentamente a janela. O Ateneu ardia. As chamas elevavam-se por cima do chalé, na direção do edifício principal. Imenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da parte de cima, que parecia chegar ao céu, iluminado inferiormente por um clarão cor de cobre.

   (...)

   Ardia efetivamente o Ateneu. Transpus a correr a porta de comunicação entre a casa de Aristarco e o colégio.

   Não havia ainda começado serviço sério de extinção. A maior parte dos criados eram licenciados por ocasião das férias; os poucos restantes andavam como doidos, incertos, gritando: "fogo!" Fui achar Aristarco no terraço lateral, agitado, bradando pelas bombas, que estava perdido, que aquilo era a sua completa desgraça! Ao redor dele pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para salvar o escritório, antes que viessem as chamas.

   O incêndio principiara no saguão das bacias.

   Por maior incremento no desastre, ardia também, no pátio, uma porção de madeira que ficara das arquibancadas, aquecendo as paredes próximas, ressecando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.

   O susto de tal maneira me surpreendera, que eu não tinha exata consciência do momento. Esquecia-me a ver os dragões dourados revoando sobre o Ateneu, as salamandras imensas de fumaça arrancando para a altura, desdobrando contorções monstruosas, mergulhando na sombra cem metros acima. O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações, clamavam por socorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da polícia em alarma, cortante, elétrico, e o rebate plangente de um sino, a distância, como o desânimo de um paralítico que quisera vir. O fogo crescia ímpetos de entusiasmo, como alegrado dos próprios clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.

   Sobre o pátio, sobre o jardim, por toda a circunvizinhança choviam fagulhas, contrastando a mansidão da queda com os tempestuosos arrojos do incêndio. Por toda a parte caíam escórias incineradas, que a atmosfera flagrante repelia para longe como folhas secas de imensa árvore sacudida. Quando as bombas apareceram, desde muito tinham começado os desabamentos. De instante a instante um estrondo prolongado de descarga, às vezes surdo, agitando o solo como explosões subterrâneas. Às vezes, a um novo alento das chamas, a coluna ardente desenvolvia-se muito, e avistavam-se as árvores terrificadas, imóveis, as mais próximas crestadas pelas ondas de ar tórrido que o incêndio despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lívidas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar pressurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, colavam-se às paredes, desapareciam por uma janela. Nas cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as cores terríveis do incêndio, moviam-se os bombeiros. Perdido completamente o lance principal do edifício: sala de entrada, capela, dormitórios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma de salvação procurava isolar o refeitório e as salas próximas, entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado, cortando o vigamento, destruindo a mobília.

   Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarco, impassível sob a chuva chamuscante das lágrimas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armários despedaçados, aparelhos, quadros de ensino inutilizados, mil fragmentos irreconhecíveis de pedagogia sapecada. A frente do Ateneu apresentava o aspecto mais terrível. De vários pontos do telhado, semelhando colunas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo; às janelas superiores o fumo irrompia também por braços imensos, que pareciam suster a mole incalculável de vapores no alto. Com a falta de vento, as nuvens, acumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em vaporosos rochedos inquietos. Às janelas do primeiro andar as chamas apareciam, tisnando os umbrais, enegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho cristalino dos vidros na pedra das sacadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.

   Nos lugares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fora camas de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As imagens da capela tinham sido salvas no princípio do incêndio. Estavam enfileiradas ao sereno, à beira de um gramal, voltadas para o edifício, como entretidas a ver. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antônio, com o menino Jesus ao colo, era o mais abstrato, equilibrando a custo um resplendor desproporcional, oferecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.

   O trabalho das bombas, nesse tempo das circunscrições lendárias, era uma vergonha. Os incêndios acabavam de cansaço. A simples presença do coronel irritava as chamas, como uma impertinência de petróleo. Notava-se que o incêndio cedia mais facilmente sem o empenho dos profissionais do esguicho.

   No sinistro do Ateneu a coisa foi evidente. Depois das bombas, a violência das chamas chegou ao auge. Do interior do prédio, como das entranhas de um animal que morre, exalava-se um rugido surdo e vasto. Pelas janelas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonizadas, via-se arder o teto; desmembrava-se o telhado, furando-se bocas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisíveis braseiros, como animados pela dor, recurvavam crispações terríveis, precipitando-se no sumidouro. No meio da multidão comentava-se, explicava-se, definia-se o incêndio.

   "Que felicidade ser o desastre em tempo de férias! -- Dizem que foi proposital..." Afirmava-se que o fogo começara de uma sala onde estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam que começara simultaneamente de vários cantos, por arrombamentos do tubo de gás perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarco e aventuravam considerações a respeito das circunstâncias financeiras do estabelecimento e do luxo do diretor.

O Ateneu
Raul Pompéia

     Resolvi reler O Ateneu novamente, trocentos anos depois da primeira tentativa, aos 12 anos. O que não é a coisa errada, no momento errado: aquilo que antes levou um mês inteiro, agora levou duas noitinhas. E até que desta vez eu consegui criar uma certa simpatia pelo pobre Sérgio, que antes me soava tão pobre, que me dava até vontade de vomitar. 

    Sou obrigado a admitir, inclusive, que o trecho do incêndio é muito bom mesmo.

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       19h55min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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17 de Novembro de 2008.
 O pudor inventou a roupa para que se tenha mais prazer com a nudez."

Carlo Dossi
Escritor italiano

David Bergman
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goodbye

    David Bergman  nasceu na Tchecoslováquia, vive em NY desde 2001 e é um puta fotógrafo que já trabalhou com uma porrada de músicos, como Gloria Estefan, Evanescence, Barenaked Ladies, Avril Lavigne e Joss Stone.  Não satisfeito em fotografar um bando de mulher gostosa, David também publicou trabalhos em lugares simples como Rolling Stone, Time, Newsweek, People, Entertainment Weekly, Blender, USA Today, CBS e The New York Times.

     Se você curtiu o trampo dele, conheça seu site. Vale a visita.

 

 

       19h36min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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16 de Novembro de 2008.
 Eu gosto da humanidade. O que eu não suporto são os humanos."

Linus van Pelt
Personagem de Peanuts

Da última árvore para o último animal

Da última árvore para o último animal
Cólera

Nós estávamos aqui
Antes de você, antes deles,
Quando o mundo desconhecia a violência
Nós existimos há trilênios
Alimentando a todos.
Aos poucos você foi vendo
Eles chegando com uma invenção
Usavam aqui para nos cortar
E com nossos pedaços em brasa
Se aquecer.
Então eles fizeram armas e motores
Com armas te caçavam
Com motores nos cortavam.
Você viu sua espécie aniquilada,
Você viu nossas sombras sumirem,
Água e ar, vítimas de contaminação química.
Você viu armas feitas com
Pedaços de nossos corpos,
Você viu sua pele irmã
A preço promocional na vitrine.
Eles não viram nada além do lucro.
Eles usam sua pele
Sentados sobre nossos pedaços.
Eles tem projetos milionários para
Exterminar todos nós.
Observe agora, eles já estão cegos e suicidas.
Olhe ao redor, só eu e você,
Eles morrem aos poucos e
Nada mais, nada mais podemos fazer,
Nada mais...

     Nunca postei tanta letra de música quanto neste novembro: esta é a quarta delas e a gente ainda está no meio do mês. E justo eu, que sempre achei que o povo que posta letra de música faz isso pra enrolar. Bem, o fato é que essas letras todas que eu ando publicando aqui têm a ver com meu atual estado de espírito e com as coisas que eu ando ouvindo. Essa composição do Cólera, um dos grupos mais representativos da cena punk brasileira, vale a pena ser lida, além de mostrar que o movimento punk não tem nenhuma relação com a imagem que a maioria das pessoas faz.
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       12h33min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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15 de Novembro de 2008.
 Os meus pensamentos são a minha perdição."

Denis Diderot
Filósofo francês

Introdução à lógica


                                                                                           Jack SK.


 

       17h05min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Pensamento vazio


                                                                                           Jack SK.

 

       16h51min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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13 de Novembro de 2008.
 A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende."

Arthur Schopenhauer
Filósofo alemão

Quase sem querer...

Quase Sem Querer
Letra: Renato Russo
Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso,
E ainda estou confuso.
Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo
E tão contente.

Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.

Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe.
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto.

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.

Disco Legião Urbana - Dois,
de Julho de 1986

Mais Legião Urbana AQUI

     Ando me sentindo exatamente como canta esta música, desde 1986, quando a ouvi pela primeira vez em um bolachão de vinil. 
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       18h42min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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12 de Novembro de 2008.
 Se o imperador me mandar pular da janela, eu pulo."

Membro anônimo da
Shindo Renmei

Carta a Theo

    A quem interessar possa (e a quem não interessar também, foda-se):

    Eu sou o tipo de cara que aprecia ficar quieto em um canto. Eu curto me trancar em casa e ficar assistindo DVD e enlatados, lendo livros, ouvindo música ou navegando pela internerd. Sou capaz de passar dias assim. Se me oferecessem uma caverna no Tibete para morar, eu iria. Bastaria que eu pudesse levar meus livros, CDs e DVDs e tivesse internerd, tv-a-cabo e uma pizzaria delivery perto. Eu sou um sujeito acomodado. Bem, na verdade, eu sou acomodado demais. Eu sou assim, mais ou menos como um hidrante, que fica parado no mesmo lugar por séculos, esperando que uma catástrofe ocorra. 

    Graças a essa minha mania besta e doentia de só sair de casa quando é extremamente necessário, eu consegui a proeza de cultivar uma bursite de estimação, que me fode de tempos em tempos e me obriga a ficar ainda mais quieto do que o normal. Minha bursite de estimação faz diminuir a minha criatividade e me tira o prazer de ficar diante do computador.

    Por isso, quando a minha bursite resolver ir visitar os parentes na Europa e me dar uma trégua, espero retornar com minha programação (a)normal.

Jack Sk.

 

       20h12min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Aki

          



                                                                                           Jack SK.

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       18h44min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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11 de Novembro de 2008.
 Estou com medo. Estou com medo, Dave. Dave, minha mente está partindo. Eu posso sentir isso. Minha mente está partindo. Não há dúvida quanto a isso. Eu posso sentir isso. Eu posso sentir isso. Eu posso sentir isso. Estou com M...edo."

HAL 9000
(computador de

2001: A Space Odissey)
Arthur C. Clarke

Lucian Freud



Naked girl asleep, II, Lucian Freud, 1968
Oil on canvas - 55.8 x 55.8 cm - Private collection

    Sim, o sobrenome Freud do Lucian é herdado do Freud do Sigmund. A arte de Lucian Freud não me deixa dúvidas de que algo mais foi herdado do avô psicanalista pelo neto artista plástico. Autor da obra mais cara já vendida por um artista vivo, seu expressionismo pós-moderno é inexplicavelmente um dos poucos fluxos de sensibilidade humana que têm me tocado nestes tempos onde meu humor anda manifestando uma ácida morbidez.

    Mas talvez Freud explique.

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       17h42min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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10 de Novembro de 2008.
 A vida é jovial. A morte é a calma. É a transição entre uma e a outra que nos cria problemas."

Isaac Asimov
Escritor americano

livros letras ventos verbos

 Fotos: Jack Sk.

livros letras
ventos verbos


Livros valem lavra
vestem vida
vergam vídia
veias velhas
velam ventos

Ventos levam vinte
lisos lenços
lentas luvas
limpas lousas
leves letras

Letras voam livres
vastos verdes
voltam vivos
visam vidros
vultos verbos

Verbos louvam vales
louras lendas
luzes loucas
lua longe
lustro lume

Jack Sk.

 

       18h15min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Diálogo

Paciente: Todas as manhãs preciso checar meus olhos para ver se não arranhei as córneas enquanto dormia.
House: Deus, pare. Está me enchendo de lágrimas aqui.
Paciente: Não posso chorar.
House: Nem eu. Toda manhã verifico meus olhos para icterícia. Pra ver se o Vicodin finalmente atingiu meu fígado.
Paciente: Não posso correr sem antes verificar se tem algum inchaço nos meus dedos.
House: Não posso correr.
Paciente: Garotos não podem ficar comigo por muito tempo, porque posso superaquecer.
House: Garotas não podem ficar comigo por muito tempo, porque só pago por uma hora.
Paciente: Preciso programar o alarme do relógio para me lembrar de ir ao banheiro. Sabe o quanto já me humilhei antes de pensar nisso?
House: Os banheiros ficam a 15 metros do meu escritório. Sempre que bebo água, peso os prós e contras.
Paciente: Depois de tudo que faço eu me checo: gengivas para cortes, conto os dentes, checo a temperatura, dedos e juntas para inchaço, pele por escoriações. 
House: Eu levei um tiro.

House, 3ª Temporada, Episódio 60: Insensitive - Universal Channel

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       18h00min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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 9 de Novembro de 2008.
 Prefiro embarcar com um canibal sóbrio do que com alguém civilizado e bêbado."

Hermann Melville
Escritor americano

Próximo

    Caso Richthofen. Caso Champinha. Caso João Hélio. Caso Silvia Calabresi. Caso Isabella. Caso Carla Burke. Caso Eloá. Caso Rachel Maria Lobo de Oliveira.

    Próxima senha, por favor. 

 

       13h27min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Ron Mueck

Baby (2000), mixed media - 
Keith and Kathy Sachs

Angel (1997), mixed media - 1/3 scale
Saatchi Collection

Mother and Child (2002),
fibreglass, resin, silicone - 1/2 scale
National Gallery of Australia

Untitled (Big Man) (2000),
a near seven-foot sculpture
Hirshhorn Museum and Sculpture Garden
 


    Ron Mueck, o artista australiano nascido em 1958 que produziu bonecos pra Vila Sésamo, só não é mais animal esculpindo porque se ele melhorar um pouco mais seus trabalhos é provável que criem vida. É mais ou menos como a história conta a respeito de Michelangelo, que quando acabou de esculpir seu Moisés, bateu-lhe violentamente com o martelo no joelho e indagou: perché non parli?

 

       12h26min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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 8 de Novembro de 2008.
 O corpo -- a vagina da alma."


Carlo Dossi
Escritor italiano

Hotel Fraternité

Hotel Fraternité
Arnaldo Antunes / Aldo Fortes / Hans Magnus Enzensberger

aquele que não tem com o que comprar uma ilha
aquele que espera a rainha de sabá na frente de um cinema
aquele que rasga de raiva e desespero sua última camisa
aquele que esconde um dobrão de ouro no sapato furado
aquele que olha nos olhos duros do chantagista
aquele que range os dentes nos carrosséis
aquele que derrama vinho rubro na cama sórdida
aquele que toca fogo em cartas e fotografias
aquele que vive sentado nas docas debaixo das gaivotas
aquele que alimenta os esquilos
aquele que não tem um centavo
aquele que observa
aquele que dá socos na parede
aquele que grita
aquele que bebe
aquele que não faz nada

meu inimigo
debruçado sobre o balcão
na cama em cima do armário
no chão por toda parte
agachado
olhos fixos em mim
meu irmão

© Rosa Celeste (UMPG Brasil) / BMG Mus. Pub. Brasil / BMG Mus. Pub. Germany

BR-RC7-06-00008

Ficha Técnica da Faixa
Arnaldo Antunes: Voz
Cézar Mendes: Violão de nylon
Daniel Jobim: Piano, vocais
Chico Salém: Violão de aço

     Ontem eu estava melancólico e resolvi tocar violão. Toquei Hotel Fraternité umas 15 vezes. Essa letra do Ezsemberger é simplesmente foda. A tradução do poeta Aldo Fortes ficou perto da perfeição. E o Arnaldo, claro, terminou colocando a cereja. Uma das músicas mais lindas já gravadas nos últimos anos, em minha modesta opinião de puxa-saco e paga-pau do trabalho do Arnaldo Antunes e do Hanz Magnus Ezsemberger

     Você percebe que um artista é "o cara" quando ele escreve tanto pra adultos quanto pra crianças e consegue ser maravilhoso pros dois. E esse é exatamente o caso do Arnaldo e do Ezsemberger. Quem já leu os textos desses dois artistas percebe logo de saída que os dois pensam de forma muita parecida e quem nunca leu nada dos dois ou de algum deles, deveria correr atrás desse prejuízo antes que seja tarde demais, porque como dizia a velha Clarice, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre

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       23h05min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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 7 de Novembro de 2008.
 Em Roma, / tudo se compra."


Juvenal
Poeta da Roma antiga

pequena reflexão

    As pessoas falam, mas tem gente que nasce muda. Há quem se diz ateu, mas que quer que Deus o acuda. Existe pastor que foi padre e padre que nunca rezou. Existe quem ama demais e também quem nunca amou. Tem gente que corre bastante e outros que usam muleta. Há quem acenda vela pra santo e quem acenda pro capeta. A polícia prende os bandidos, mas tem policial que é ladrão. Tem puta que é indecente, mas outras que não são não. Há mães que cuidam dos filhos e filhos que matam seus pais. Tem gente que pensa que é gente e as que sabem que são animais. 

 

       14h19min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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 6 de Novembro de 2008.
 O que ele vai fazer? É uma aberração, coitado. Somos sócios. Eu ajudo a ele e ele a mim. Nós entendemos um ao outro."

Mr. Bytes, em
Elephant Man,
de David Lynch

Não bota uma roupa


Quem se importa com peitos com um rostinho desses olhando?
Gostou? Vai lá no Beauty is divine babar mais na Francesca, vai.


 

       18h54min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Bota uma roupa

Bota Uma Roupa (proibidão)
MC Didô

Bota uma roupa, bota, bota, bota uma roupa (2X)

Fica com a bunda toda empinada com os peitos pontudos (2X)

Nós pensa que ela é toda gostosa, mais quando ela tira a roupa (2X)

Puta, puta, puta que pariu (3X)

Cheio cheio de furunco, puta, puta, puta que pariu, cheio de furunco, puta, puta, puta que pariu, puta, puta, puta que pariu (2X)

Só reloginho, diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin, Vaii!

Bota uma roupa, bota, bota, bota uma roupa (2X)

Fica com a bunda toda empinada com os peitos pontudos
Nós pensa que ela é toda gostosa, mais quando ela tira a roupa
Mais quando ela tira a roupa, mais quando... mais quando... ela tira a roupa

Só reloginho, diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin diguidin, Vai!

Puta, puta, puta, puta, puta que pariu! Cheio cheio de furunco, pu, pu, puta que pariu...

   Seria óbvio demais se eu escrevesse que a letra que você acabou de ler foi escrita por alguém cujo Q.I. oscila entre o de uma orquídea e o de uma anêmona e pra quem toda perspectiva de vida resume-se a uma boceta. Seria óbvio demais dizer que a consciência social do autor ainda caminha pelas savanas apoiada nas articulações dos dedos das mãos. Seria fácil demais condenar tanto quem escreve quanto quem dança uma letra dessas.

   Seria, se a questão realmente fosse essa.

   O grande problema quando o assunto é o funk e suas letras, reside no simples fato de que essa é a expressão mais lógica de uma comunidade que reage à sociedade que a cerca com vislumbres de civilidade e sonhos novelísticos globais. Escrever é um ato que faz sentido apenas para quem compreende a necessidade desse sentido. Embora não haja pesquisas rigorosas a respeito, parece haver um consenso entre diversas fontes na Internet cujos números indicam que um brasileiro médio possui um vocabulário ativo de cerca de duas mil palavras. Um analfabeto típico que vive nas grandes favelas, cerca de mil e quinhentas. Há quem afirme que o vocabulário máximo de um analfabeto em sua língua materna seja de setecentas palavras. A Gorila Koko, possui mil. Estima-se que um leitor médio seja capaz de assimilar o significado de três mil novas palavras a partir do contexto e a extensão de seu vocabulário está associada à capacidade geral de leitura, compreensão e sucesso escolar. Rá! No caixa eletrônico, insira o seu cartão. Inserir? Que porra é essa? Meta, enfie, soque o seu cartão aí no buraco da máquina, porque ninguém insere o pau numa boceta, as pessoas metem. O fato é que o seu mundo não foi feito para o funk de MC Didô. O mundo de MC Didô não abriga o leitor médio, tampouco aquele com capacidade geral de leitura, compreensão e especialmente aquele com sucesso escolar.

   O funk é tudo -- e trata de tudo -- o que é de interesse direto daqueles que recorrem à pornografia como diversão barata, talvez porque uma rápida trepada entre uma multidão suada e ensandecida seja mais em conta do que uma insossa sessão de cinema. O funk não simplifica a violência mais do que os telejornais, não vulgariza a mulher mais do que as novelas e os desfiles de moda. O funk não incita as galeras à pancadaria desenfreada mais do que as academias incitam os babacas à pancadaria covarde e nem perverte menores mais do que a própria moral da sociedade que o critica. O funk não mergulha uma juventude já perdida nas drogas mais do que a indústria do álcool afoga esse mesmo pessoal em overdoses etílicas e MC Didô não está menos preocupado em encher os bolsos com as parcas moedas dessa gente do que governantes e empresários. Sexo, drogas e violência parecem ser a tríade perfeita para o equilíbrio dos hormônios, afinal não exigem muito para serem compreendidos em suas essências. 

   O funk não traz perspectivas, é verdade. Mas a escola também não traz e os cadernos de empregos dos jornais também não. O funk não educa, mas as famílias também não. O funk não trabalha para os jovens, mas os políticos também não. O funk não traz redenção, mas as igrejas também não. O funk não faz poesia, mas a vida também não é exatamente poética.

   O crime do funk, neste caso, é fazer com que alguém como MC Didô consiga elevar-se ao status de artista, quando o mundo que o condena a dedos apontados já decidiu que, quem nasce na favela, não pode ascender mais do que à posição de mestre-de-obras.

   Tudo tão simples, que nem tem graça.

 

 

       18h48min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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 4 de Novembro de 2008.
 A maldade é congênere do homem."


Camilo Castelo Branco
Escritor português

A cidade do massacre

    Haim Nachman Bialik (ou Chaim Nachman Bialik) nasceu na Ucrânia, em 1873, e faleceu em Viena, no ano de 1934. Movido pela sensibilidade que lhe valeria a alcunha de Poeta Nacional de Israel e temperado com os açúcares daqueles que conheceram os mais profundos terrores possíveis de serem produzidos pela alma humana, o grande poeta judeu escreveu A cidade do massacre, em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido nos dias 6 e 7 de abril de 1903.

      Eu não sou muito a favor de postar textos longos, especialmente se não forem de minha autoria. Acho que soa mais ou menos como encher lingüiça. Mas de vez em quando, sou obrigado a admitir que, quando a essência de uma proposta pode ser resumida como "sobre a arte de reciclar seu próprio sangue", versos como O cântico do calvário, de Fagundes Varela, A bomba atômica, de Vinícius de Moraes, A terra desolada, de T.S. Eliot, O barco ébrio, de Rimbaud e A cidade do massacre, de Bialik, acabam impondo-se como uma espécie de necessidade óbvia. 

    Você pode tirar suas próprias conclusões conhecendo essa obra de Bialik...

A cidade do massacre

Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios;
Com a tua mão toca,
e com os olhos da tua cara
olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale
os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos.
Vai depois às ruínas, onde
se estendem as paredes fendidas,
onde cresce o vazio e maior cresce a brecha;
Passa sobre a lareira despedaçada,
alcança as paredes quebradas
cujos tijolos queimados e estéreis,
cujas pedras carbonizadas
revelam as bocas abertas dessas feridas,
que nenhum remendo alguma vez remendará,
ou cura curará.
Ali penas afundarão os teus pés, e
tropeçarás em destroços duplamente destroçados,
pergaminhos empilhados em manuscritos.
Fragmentos outra vez fragmentados.

Não pares neste caos; segue o teu caminho.
O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento
e metade das suas flores serão penas,
que exalam o odor do sangue.
E, mortificando-te, estranhos incensos trarão.
Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera,
os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição.
Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos;
O assassino matou, as flores desabrocharam,
e depois veio o tempo ameno e o sol.

Vai depois a um quintal, observa o monte.
Sobre o monte estão dois decepados:
Um judeu e o seu cão de caça.
Golpeados com o mesmo machado, os dois,
arremessados para a mesma pilha
onde porcos buscam estrume.
Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados
para os riachos, e perder-se-ão
em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama.
O seu grito não será ouvido.
E tudo será como sempre foi.

Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos;
Observa a sombra da morte erguida entre as sombras.
Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio,
numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste.
Estas são as almas do espírito dos mártires,
Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis.
O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram
selar com o último olhar, com o último sopro,
a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes.
Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se.
O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam:
Porque razão, Senhor, e porquê?
É um silêncio que só Deus pode suportar.

Levanta então os teus olhos para o tecto;
não há lá nada, a não ser um seguro silêncio
suspenso nas traves.
Interroga a aranha no seu esconderijo.
Os seus olhos viram todas estas coisas;
E com a sua teia ela pode desenrolar um relato
horrendo aos ouvidos dos homens:
uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas,
de crânios e ossos esmagados e derramados.
De homens assassinados pendurados nas traves.
E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe
trespassada por uma lança;
De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança,
ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se.
Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações
do relato que a aranha reconta,
histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam
o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre.
Então vais implorar ao teu espírito --
Pára, chega!
Asfixia a raiva que te sobe a garganta,
enterra estas coisas malditas,
bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure.
Depois deixarás estes lugares e partirás -- olha! --
A terra é como era, o sol brilha ainda:
É um dia como qualquer outro.

Desce depois às adegas da cidade,
aqui violaram as virginais filhas das gentes,
onde sete bárbaros se atiraram às mulheres,
a mãe à vista da filha,
a filha à vista da mãe,
antes da matança, durante a matança, depois da matança.
Toca com teus dedos o forro manchado,
sente a almofada ensangüentada,
foi aqui que as bestas selvagens
com machados sangrentos nas patas
obrigaram as tuas filhas a sucumbir...
Esmagadas na vergonha, viram tudo;
Não arrancaram os olhos;
Não esmagaram a cabeça contra paredes.
Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações:
Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia!

Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos,
Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram
os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos,
escondidos e agachados ¿ os filhos dos Macabeus!
A semente de santos, a prole dos leões!
Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação,
tanto santificaram o Meu nome!
Fugiram a fuga dos ratos,
o correr das carochas foi a sua fuga;
morreram como cães e morreram!
E, na manhã seguinte, depois da noite terrível
o filho que não foi morto encontrou no chão
o cadáver desprezado do seu pai.
Porque razão, Senhor, e porquê?

Exausta e gasta, uma escura Shekinah
Corre para cada canto sem encontrar descanso;
Deseja chorar, mas o choro não vêm;
Quer rugir; emudeceu.
Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida
sobre as sombras dos mártires mortos,
as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra.

Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão;
Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue;
Tardando ali serás uno com a dor e a angustia
e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias.
Então, no dia da tua própria desolação
parecerá um refúgio,
pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio,
o assombrar de um pesadelo,
Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo
quererás proclamá-lo, falar dele
mas os teu lábios não encontrarão palavras.

Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério.
Não deixes que homem algum te veja; chega só,
Um lugar de campas santas e pedra-mártir.
Chega-te perto do solo revolvido e fresco.
O silêncio tomará conta de ti,
O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha,
mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos.
Endurecerei o teu coração,
não te permitirei um suspiro.
Olha, vê os bezerros mortos, massacrados;
Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço?
Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre!
Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda.
Quando à minha porta vieres buscar recompensa,
abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios.
Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós.
Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu
sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis;
As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa.

Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te
do cemitério aos teus irmãos vivos,
e virás, com os da tua própria geração,
à sinagoga, e no dia do jejum,
para ouvir o seu grito de agonia,
as suas eternas lágrimas.
A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé,
e serás movido, trémulo, pelo medo.
Assim geme um povo perdido.
Olha nos seus corações ¿ observa o triste vazio
onde nem a vingança consegue crescer,
mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam
altas maldições, ou juramentos de blasfémia.
Fala com eles, implora-lhes raiva!
Deixa que contra mim levante a mão ultrajada,
Deixa que exijam!
Exijam retribuição pelos humilhados
de todos os séculos e todos os tempos!
Que se atirem punhos como pedras
Contra os céus e o Trono celeste!

E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas;
Não deites nem mais uma gota no seu cálice.
Onde tocasses encontrarias uma ferida,
as suas carnes são todas chaga.
Porque com resignação enfrentaram a dor
e com a humilhação fizeram pazes,
de que lhes servirá a tua consolação?
São coitados demais para evocar em ti desprezo.
São arruinados demais para evocar em ti compaixão.
Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição,
enlutados e esmagados sob o peso que os oprime.
Parte então das suas casas e lares
podridão nos ossos, corrupto coração.
E vai até à estrada,
encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa,
suspirando e gemendo, às portas dos ricos
proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte,
A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos,
um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos.
E todos têm olhos que são os olhos de escravos,
Escravos açoitados em frente dos donos;
cada um suplica, cada um deseja:
Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado.
Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado!

E assim compaixão imploram.
Porque és agora o que sempre foste
Como estendeste a mão
assim a estendes,
e como foste desgraçado,
assim desgraçado és.

Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos!
Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda o seu grito amargo à tempestade!

Haim Nachman Bialik

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       14h09min  Comente   Posted By Jack Sk.  

Rosebud

A ghost sign
Rosebud, Falls County, North Central Texas, Hwy 77
Photo courtesy Barclay Gibson, August 2006


 

       13h25min  Comente   Posted By Jack Sk.  

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 3 de Novembro de 2008.
 Você pode passar batom em um porco. Ainda é um porco. Você pode embrulhar um peixe velho em um pedaço de papel e chamar de mudança. Ainda vai feder depois de oito anos."

Barack Obama
Candidato Democrata às eleições americanas 2008

Novo layout

    Este novo layout, que na verdade não é exatamente o que podemos chamar de novo, uma vez que não passa de uma releitura do desenho utilizado nos meses de setembro e outubro, foi baseado na obra The silence of the lambs, do artista gráfico romeno Teodoru Badiu

    No mais, nada de mais.

 

       18h23min  Comente   Posted By Jack Sk.  

  

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