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| 28
de Dezembro de 2008.
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pseudo-canibalismo
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Aproveitando o ócio e estudando a mente
humana, eis que me deparo com uma pequena
notícia sobre um inusitado restaurante,
localizado no Japão:
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"Estudantes de medicina ou
interessados afins podem sentir
vontade de visitar esse
restaurante no Japão. O
diferencial é que ele serve a
comida dentro de um corpo com
formas humanas comestível,
servida em uma mesa que parece uma
maca de cirurgia. Um banquete para
canibais.
Você
corta o corpo, abre e pode comer o
que se encontra dentro. Quando a
“incisão” é feita o corpo
sangra parecendo de verdade. Logo
aprecia os intestinos que parecem
também reais e pode cortar, comer
e apreciar a iguaria.
Um
verdadeiro banquete de canibais
para quem tem muita coragem." |
Uma referência psicológica interessante
para uma brilhante sociedade que, sabe-se
lá exatamente porquê, absolveu e decidiu
elevar uma figura como a de Issei
Sagawa ao status de
celebridade.
Think about. Fonte:
viajandaun
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| 25
de Dezembro de 2008.
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Um Conto de
Natal
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Primeiro plano – Scrooge diz repetidamente para o espírito
do Presente que gosta do Natal. Scrooge, alegre, gargalha
alto. Fusão. Primeiro plano - rosto de Scrooge sorridente. A
este plano sobrepõem-se imagens alternadas das visitas do
protagonista ao passado e presente.
“As vidas dos Fantasmas são curtas assim?” Indagou Scrooge.
“Minha vida neste planeta é muito curta”. Respondeu o
Fantasma. “Termina nesta noite”. “Esta noite?” Gritou Scrooge. “Hoje, à
meia-noite. Vamos, a hora está chegando”.
¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤
Plano americano
– Penhasco coberto de névoa. Scrooge dá
gargalhadas. (Trilha – gargalhada. Barulho forte do vento. Três toques de relógio. Gargalhada pára.) Plano americano –
Scrooge percebe o local em sua volta (Trilha – barulho forte de vento e
música instrumental, tom fúnebre e de mistério).
Scrooge olha para sua esquerda. Abertura de plano sem corte
– plano geral) – ator com capa preta sai por trás de um rochedo
no centro da tela e caminha ao encontro de Scrooge (Trilha –
sobe o volume da música de tom fúnebre e do barulho do
vento). Plano médio – Scrooge pergunta se a figura é o espírito
do Natal Futuro, mas esta não responde, somente indica com
o braço a direção que devem tomar.
O sino bateu doze horas
(...) Quando a última badalada parou de vibrar, Scrooge (...),
erguendo os olhos, entreviu um solene Fantasma, de manto e
touca, aproximando-se feito uma névoa rente ao chão, na
direção dele.
O espírito aparecia envolvido numa vestimenta preta, que lhe
escondia a cabeça, o rosto, as formas, sem deixar nada à vista
a não ser uma das mãos, estendida. (...) Scrooge sentiu que era
alta e grande a figura que se colocara ao lado dele (...) Não
sabia mais nada, pois o espírito não falava nem se movia.
Trechos da Adaptação cinematográfica
de Edwin L. Marin, de 1938, da obra
"Um Conto de Natal", de Charles Dickens
In Dickens
em transmutação: a tradução da
simbologia dos espíritos em Um
Conto de Natal para o cinema,
Renata de Oliveira Mascarenhas,
UECE
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| 24
de Dezembro de 2008.
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reflexões de
vésperas
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Conta-gotas

contagota
contagota
contagota
contagota
conta
gota
conta
gota
toda
gotaconta
Jack
Sk.
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| 23
de Dezembro de 2008.
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Dois poemas de
Ana Cristina Cesar
Flores Do Mais
Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
Ana Cristina Cesar
in
Alguma Poesia
¤
¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤
¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤ ¤
Atrás
dos olhos das meninas sérias
Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário
nobre do adultério. Separatista protestante.
Melindrosa basca com fissura da verdade. Me
entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco, o
primeiro side-car anfíbio nos classificados de
aluguel. No flanco do motor vinha um anjo
encouraçado, Charlie’s Angel rumando a toda para
o Lagos, Seven Year Itch, mato sem cachorro. Pulo
para fora (mas meu salto engancha no pedaço de
pedal?), não me afogo mais, não abano o rabo nem
rebolo sem gás de decolagem. Não olho para trás.
Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê
novela de verdade e meu manto azul dourado mais
pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da
frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e
pernalta.
Ana Cristina Cesar
in
A teus pés
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Phoenix
Após alguns dias fora do ar, eis que
ressurge das cinzas esta fênix coagulada
que vos escreve. Para resistir ao desejo
de passar os últimos dias debaixo da cama,
dei uma passada na Livraria Cultura do
Shopping Villa-Lobos e comprei dois
livros, só pra variar: Corações
sujos, do Fernando Morais e a
coletânea Antigos
e Soltos: poemas e prosas da pasta rosa,
de Ana
Cristina Cesar.
O livro
da Ana Cristina Cesar organizado pela
Viviana Bosi é um dos mais bacanas que
andei lendo nos últimos tempos. O projeto
gráfico é maravilhoso e o conteúdo não
fica atrás. Recomendo verdadeiramente pra
todo mundo que gosta de poesia.
Interessante que, a respeito do primeiro
livro, o terceiro japonês, da esquerda
pra direita, Isamu Matsumoto, foi tio-avô
de um amigo meu. Você pode conhecer um
pouco mais da história dele lendo este
artigo e, é claro, lendo o
livro depois.
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| 18
de Dezembro de 2008.
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| 17
de Dezembro de 2008.
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Gregor
Schneider
Gregor Schneider nasceu em Rheydt,
Alemanha, em 1969. Estudou na Düsseldorf
Academy of Arts, Münster Academy
of Fine Arts e na Hamburg Academy
of Fine Arts, todas na Alemanha.
Realizou diversas apresentações solo em
inúmeros museus ao redor do mundo.
Foi dele a instalação
construída na praia de Bondi Beach,
na Austrália, em 2007, envolvendo celas
gradeadas e guarda-sóis e a polêmica
proposta de apresentar uma
instalação habitada por doentes
terminais ou recém-falecidos, para
demonstrar a beleza da morte, no início
deste ano. As instalações acima, que
lembram por vezes uma casa assombrada ou a
cena de um crime, foram idealizadas para
serem apreciadas como um quadro (desde que
se entenda que cada pormenor foi
cuidadosamente calculado e contribui para
a impressão global provocada pela obra),
neste ano, no Museu
Serralves, em Portugal.
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| 16
de Dezembro de 2008.
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Manifest cannibale dans l'obscurité
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"Vocês todos são acusados: levantem-se! Só se pode falar com vocês quando estão de pé. Fiquem de pé, como se estivessem ouvindo a Marselhesa, o hino nacional russo ou God save the King.
Fiquem de pé, como se estivessem diante da bandeira. Ou como se estivessem diante de Dadá, que significa vida, e os acusa de amar tudo por esnobismo, contando que seja bastante caro.
Vocês voltarão a sentar-se? Tanto melhor, assim me ouvirão com maior atenção.
O que é que vocês fazem aqui, amalhados como crustáceos sérios -- porque vocês são sérios, não é? Sérios, sérios, sérios até a morte. A morte é uma coisa séria, não é mesmo? Morre-se como herói ou como idiota, o que dá na mesma. A única palavra que tem um valor mais duradouro é a palavra morte.
Vocês amam a morte que os outros morrem. A mort! Matem-nos, deixem que eles estiquem a canela! Só o dinheiro não morre, ele apenas vai viajar um pouco. Ele é Deus! Todos o veneram, uma personalidade respeitável!
Dinheiro, a genuflexão de famílias inteiras. Viva o dinheiro! Viva! O homem que possui dinheiro é um homem respeitável.
A honra é comprada e vendida como -- o traseiro. O traseiro representa a vida como as batatas fritas, e todos vocês, com toda esta responsabilidade, fedem mais do que esterco.
No que diz respeito a Dadá: ele não tem cheiro; pois ele não significa nada, absolutamente nada.
Dadá é como as esperanças de vocês, nada.
Como o paraíso de vocês, nada.
Como os ídolos de vocês, nada.
Como os líderes políticos de vocês, nada.
Como os heróis de vocês, nada.
Como os artistas de vocês, nada.
Como as religiões de vocês, nada.
Assobiem, gritem, quebrem minha cara -- e o que resta?
Vou continuar dizendo que vocês são patetas, e lhes vendendo nossos quadros por alguns francos."
Trecho
de
Manifest cannibale dans l'obscurité,
de Franz Picabia, 1920 |
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98%
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| 15
de Dezembro de 2008.
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I will not
make any more boring art
| Então,
John
Baldessari, o artista que
escreveu I will not make any more
boring art, fez isso: |
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John
Baldessari
The Pencil Story 1972
- 1973
Marian Goodman Gallery, New York
© John Baldessari
Colour photographs, with coloured
pencil, mounted on board |
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John
Baldessari
Hitch-hiker (Splattered Blue) 1995
Courtesy Marian Goodman Gallery,
New York © John Baldessari
Colour photograph, acrylic,
maquette |
| E
assim, John
Baldessari, o artista que
escreveu I will not make any more
boring art, conseguiu cumprir
com o que havia escrito.
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| Era
uma vez um cara chamado Jack Sk. |
| Jack
Sk. não era ninguém. |
| Um
dia, Jack Sk., o cara que não era
ninguém, escreveu isto. |
| E
assim, Jack Sk. não fez
absolutamente nada de novo. |
Rá!
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| 14
de Dezembro de 2008.
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黒鷺死体宅配便
& Highway 61 Revisited
黒鷺死体宅配便
(Kurosagi Shitai Takuhaibin),
ou
Delivery Service of Corpses, é o
nome de um mangá editado no Brasil pela Conrad,
escrito por Eiji Otsuka e desenhado por Housui
Yamazaki. Hiper resumindo a proposta,
série conta a história de um grupo de
estudantes de uma universidade budista que
une seus talentos especiais em uma empresa
que tem como objetivo realizar os desejos
de pessoas que já morreram. Dividido em
capítulos cujos títulos foram tirados de
músicas de cantores japoneses como Hiromi
Oota, Kenji
Sawada e Naomi
Chiaki, cada uma das entregas
do mangá está relacionada a uma história
simplesmente bizarra. Eu comecei a ler
ontem e já aconselho, sem medo de indicar
besteira, a todo mundo que se interessa
por cultura japonesa e especialmente, por esse tipo
de tema.
Highway 61 Revisited, o sexto
álbum do Bob
Dylan, que abre com Like a Rolling Stone,
produzida por Tom
Wilson e outras 8 faixas produzidas
por Bob
Johnston. O CD custou patéticas 14
pratas e 90 centavos na Livraria
Cultura e é ducaralho, mesmo eu
achando Mr.
Robert Allen Zimmerman uma espécie de
idiota genial. Também comprei Tell
Tale Signs, um CD duplo, por R$32,90,
cuja edição
gringa custa praticamente 100 pratas.
Tudo isso porque eu sou tosco e não gosto
de baixar música na Internerd.
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| 13
de Dezembro de 2008.
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Andre Breton
Poema
Tenho na minha frente a fada de sal
cuja túnica recamada de cordeiros
desce até ao mar
Cujo véu pregueado
de queda em queda ilumina toda a
montanha.
Ela brilha ao sol como um lustro de
água iridiscente
E os pequenos oleiros da noite
serviram-se das suas
unhas onde a lua não se reflecte
para moldar o serviço de café da
beladona.
O tempo enrodilha-se miraculosamente
detrás dos seus
sapatos de estrelas de neve
ao longo dum rasto perdido nas
carícias
de dois arminhos.
Os perigos anteriores foram
ricamente repartidos
e mal extintos os carvões no
abrunheiro bravo das sebes
pela serpente coral que sem custo
passa
por um delgado
filete de sangue seco
na lareira profunda
sempre sempre esplendidamente negra
Esta lareira onde aprendi a ver
e sobre a qual dança sem cessar
o crepe das costas das primaveras
Aquele que é necessário lançar
muito alto para dourar
a mulher em cujos cabelos encontro
o sabor que perdera
O crepe mágico o sinete voador
do amor que é nosso.
Andre
Breton
(traduzido
por Nicolau Saião)
Fonte: www.triplov.com/letras/nicolau_saiao/index.htm |
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Tristan Tzara
(fragmento)
A
primeira aventura celeste
do Senhor Antypirine (fragmento)
Nós declaramos que o automóvel é
um sentimento
que já nos animou em demasia na
lentidão das suas abstracções
e os transatlânticos e os ruídos e
as ideias. Entretanto
exteriorizamos a felicidade,
buscamos a essência central
e ficamos muito contentes por a
esconder. Nós não queremos
contar as janelas das maravilhosas
elites, pois que Dada
não existe para ninguém e queremos
que todos percebam isso mesmo
uma vez que é da varanda de Dada,
garanto-vos, que se podem ouvir
as marchas militares
e descer cortando o ar como um
serafim nos balneários públicos
para urinar e compreender a parábola.
Dada não é loucura, nem sabedoria,
nem ironia – olha para cá
a ver se me vês
gentil burguês.
A Arte era um jogo, uma noz, as
criancinhas
juntavam as palavras com um guiso na
ponta e depois choravam
gritavam a estrofe e calçavam-lhe
botinhas de boneca e a estrofe
transformava-se em rainha para
morrer um bocadinho
e a rainha transformava-se numa
baleia e as crianças corriam
corriam até perder o fôlego.
Então chegaram os grandes
embaixadores do sentimento
gritando historicamente em coro
psicologia psicologia ia ia
Ciência Ciência Ciência
viva a França!
Nós não somos ingénuos
nós somos sucessivos
nós não somos o contrário de
exclusivos
de certeza que não somos simples
e sabemos perfeitamente discutir a
inteligência.
Mas nós, Dada, nós não somos da
sua opinião
visto a Arte ser uma coisa pouco séria
asseguro-vos
e se vos apontamos o Sul e o crime
para dizer empanturradamente
ventilador
arte negra e sem humanidade
é para que o prazer vos sufoque
queridos ouvintes
amo-vos tanto tanto
asseguro-vos
e adoro-vos.
Tristan
Tzara
(traduzido
por Nicolau Saião)
Fonte:
www.triplov.com/letras/nicolau_saiao/index.htm |
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| 11
de Dezembro de 2008.
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fuckn'fucsia
FUCSIA,FUCK&CIA.
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Perdoando
Deus
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"Então
era assim?, eu andando pelo mundo
sem pedir nada, sem precisar de
nada, amando de puro amor
inocente, e Deus a me mostrar o
seu rato? A grosseria de Deus me
feria e insultava-me. Deus era
bruto. Andando com o coração
fechado, minha decepção era tão
inconsolável como só em criança
fui decepcionada. Continuei
andando, procurava esquecer. Mas só
me ocorria a vingança. Mas que
vingança poderia eu contra um
Deus Todo-Poderoso, contra um Deus
que até com um rato esmagado
poderia me esmagar? Minha
vulnerabilidade de criatura só.
Na minha vontade de vingança nem
ao menos eu podia encará-Lo, pois
eu não sabia onde é que Ele mais
estava, qual seria a coisa onde
Ele mais estava e que eu, olhando
com raiva essa coisa, eu O visse?
no rato? naquela janela? nas
pedras do chão? Em mim é que Ele
não estava mais. Em mim é que eu
não O via mais."
Trecho
de Perdoando Deus,
de Clarice Lispector
in Felicidade Clandestina |
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O estranho
mundo de jack
Eu sou uma pessoa estranha. Vira-e-mexe eu desapareço daqui e sempre que isso acontece, você pode apostar que é porque eu estou entretido com alguma coisa que pra maioria das pessoas pode ser considerada idiota. Esse é o preço que um
nerd paga por suas idéias esquisitas.
Quando eu comecei a escrever meu conto de
sci-fi policial, esbarrei em uma possibilidade que me pareceu excitante: descrever formas e sistemas de vida ficcionais mas bioquimicamente viáveis. Isso é particularmente interessante pra mim, que desde sempre me interessei por química orgânica, bioquímica e evolucionismo. Logo eu comecei a pensar em desenvolver um pequeno curso de
astrobiologia pro próximo ano. Uma coisa simples, onde eu pudesse apresentar a hipótese da
panspermia
, explicar o conceito de Zonas
Goldilocks e a Equação de Drake
e fornecer dados capazes de levar meus alunos a especularem acerca da capacidade que a vida possui de se adaptar a cenários inóspitos. Para isso ocorreu-me selecionar alguns exemplos de
extremófilos e dados sobre como a vida evoluiu na Terra, aquela história de que o surgimento dos organismos fotossintetizantes, num momento em que o modelo biológico dominante era anaeróbio, elevou os níveis de oxigênio a ponto de causar a primeira extinção em massa da história, estabelecendo os padrões atuais de dependência do oxigênio para o desenvolvimento da vida. Até então, tudo ia bem.
Foi aí que eu me dei conta de que a coisa toda teria maior graça se fosse possível exibir um modelo vivo de ecossistema que pudesse ser observado, seguindo o
esquema d0 Projeto
Biosfera 2. Foi nesse momento que eu me lembrei
das Ecospheres
idealizadas pela NASA, me empolguei e decidi criar a minha.
Dessa forma, há alguns dias estou me ocupando em projetar um
microssistema auto-suficiente, capaz de sobreviver com o mínimo possível -- ou nenhuma -- interferência externa. Por razões óbvias, que podem ser facilmente verificáveis na história da vida, além de prover meios mais simples de analisar e controlar o ambiente, o sistema será desenvolvido na água, em um aquário de 30 X 12 X 21cm e capacidade para 8 litros. A relação entre a produção de
CO2 e
O2
das plantas e animais é o primeiro fator que deverá ser levado em conta, seguido pelo potencial gerador de nitrato, nitrito e amônia,
que estabelecerá o modelo do ciclo
de nitrogênio que o conjunto provavel-
mente apresentará. Dessa forma eu poderei estabelecer as chances que o sistema terá de manter o
pH e a
dureza em equilíbrio por conta própria. Partindo desses pressupostos, estou pesquisando e selecionando espécies que possam interagir de forma a entrarem em equilíbrio e que por sua vez possuam certo grau de resistência.
Em breve eu devo terminar a minha primeira lista de organismos complexos candidatos à proposta. A lista definitiva vai depender de algumas coisas ainda. Depois disso ainda tenho que pesquisar uns fornecedores confiáveis (que não me vendam
bichos e plantas doentes) e fazer alguns cálculos bestas pra saber quais quantidades de cada espécie serão necessárias para manter o sistema em funcionamento e torcer pra não morrer todo mundo quando a coisa inteira estiver montada.
Tá, podem falar, a
idéia é meio tosca e eu definitivamente não sou um ser humano normal.
Juro por Deus que eu não sei como eu
consigo ficar animado com uma coisa
dessas.
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The Maelstrom
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The
Maelstrom, Jack Sk., 2007
Digital Art - 2
pics, 1.654 X 2.480 pixels each
one |
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Sci-Fi
(Parte Três) - Aberratio ictus
Após
as duas primeiras partes de meu conto de
ficção-científica policial, In intinere
e Exceptio veritatis,
segue a terceira delas. Quem quiser descer
o cacete, fique a vontade. Vamos ver se
ela ainda vai mudar ou permanecer assim
mesmo.
Aberratio ictus
O estado de saúde do Tenente-Brigadeiro Liev Ivanovich
Blaustein, Comandante da Primeira Frota Estelar da Organização dos Estados Terrestres Unidos, era delicado. Logo após a conversa com o Primeiro-Imediato do
Centaurus, sua pressão arterial ultrapassou a órbita de Netuno e não fosse a rápida ação do jovem oficial, não teria sobrevivido ao infarto que se seguiu. Aquele não era o primeiro ataque cardíaco que sofria, muito menos o segundo, e por isso o coração do velho Comandante
de 106 anos de idade há tempos já não era mais o mesmo. Encontrava-se agora na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Militar Geral da Base Estelar
Chandrasekhara, a meio caminho entre a Terra e a Lua, com uma lesão cardíaca irreversível que exigia uma imediata intervenção cirúrgica. Apesar do risco de morte e de uma equipe em prontidão para a realização do procedimento, o marido do Comandante parecia irredutível quanto ao fato de não autorizar a
cirurgia.
Casado com o Presidente da Cybernews Interplanetary Networks há mais de 70 anos, o casal já havia se manifestado inúmeras vezes contra a realização de
xenotransplantes. Mesmo após a aprovação do Congresso
Mundial e dos milhares de estudos desenvolvidos pela Agência Internacional da Saúde comprovando a alta taxa de sucesso dos transplantes de tecidos de híbridos suínos para humanos, tanto o Comandante Liev quanto seu esposo defendiam que a implantação de órgãos e tecidos de outras espécies no corpo humano ou vice-versa
constituía uma grave violação, tanto dos direitos civis quanto das leis divinas. Nesse momento a briga entre os advogados do casal e os representantes legais da Junta de Direito Militar vagava entre questões puramente filosóficas e uma disputa explícita do poder militar contra a força
manipuladora da maior rede de notícias existente no Sistema Solar. Enquanto isso, o Alto-Comando da Organização dos Estados terrestres Unidos convocava uma reunião de emergência no Quinto Setor do Anel Orbital Nova-Terra.
Era para lá que se dirigia o ônibus espacial que trazia a bordo o Coronel Odysseu Cydoniapulos, Primeiro-Imediato do Cruzador Espacial Centaurus.
-- Parece que as coisas vão ficar tensas aqui em cima, querida... -- dizia o Coronel Odysseu a sua esposa em Marte e relendo o relatório do
Caso Ben Zeev enquanto aguardava a resposta, que demorava cerca de três
minutos para chegar até ele.
-- ...Um homem foi assassinado dentro de um dos Silos Biológicos do cruzador no qual estou servindo e
nunca um assassinato foi registrado antes dentro de uma espaçonave militar da Primeira Frota... Você não tem noção da confusão em que está isto aqui, ninguém diz coisa com coisa... As notícias ainda não chegaram até aí, mas acho que é uma questão de tempo até que a
Cybernews comece um escândalo. Você sabe, a central de retransmissão deles fica em Chandrasekhara. O marido do Comandante Blaustein encheu a Base Chandrasekhara de advogados e está louco aqui...
Começou a transferir alguns trechos do relatório para seu computador de bolso através de uma conexão infravermelha. Ajustou a taxa de
download enquanto ouvia a breve pergunta que sua esposa enviou-lhe como resposta e respondeu:
-- ...Pois então, é que o Comandante infartou quando soube da notícia e agora precisa de um xenotransplante de tecido muscular suíno para continuar vivo, mas os dois nunca esconderam que eram contra esse tipo de procedimento e então o esposo dele não quer deixar de jeito nenhum que realizem a
cirurgia... Sei lá, acho que ele prefere o marido morto. Aliás, segundo ele, o próprio Comandante preferiria a morte... Eu imagino que você deve estar pensando e eu também acho besteira, mas quando eu saí de lá os ânimos de todo mundo ainda
estavam longe de esfriar...
Baixou o terminal de consultas localizado acima de sua cabeça e consultou as informações do
display. Precisava ter acesso aos dados gravitacionais previstos para o Quinto Setor do Anel Orbital Nova-Terra nas próximas horas. Regulou a altura do som dos fones através dos quais ouvia, no silêncio de sua cabeça, as palavras de sua mulher, enviadas de Marte,
a 200 Segundos-luz de distância.
-- ...O cérebro dele foi vaporizado e o corpo foi processado pelos substratos do Silo, ele foi
identificado através de reconstituição facial... Acho que o assassino não quis arriscar vaporizar mais do que o cérebro, deve ter imaginado que seria complicado controlar o calor dos
lasers caso saíssem de dentro crânio. Eles provavelmente causariam estragos na estrutura física do Silo e isso certamente chamaria imediatamente a atenção dos robôs da equipe de reparos... Também não sei, querida, mas imagino que o verdadeiro motivo por trás dessa decisão está o fato de que vaporizar o corpo todo exigiria uma carga muito grande de energia e a arma precisaria retornar ao centro de re-energização imediatamente e, bem, acho que isso também chamaria a atenção...
Verificou os dados gravitacionais dentro do ônibus espacial e buscou por seu histórico de viagens, precisava dos números relativos aos dois últimos locais com gravidade simulada em que esteve. Começou a introduzir rapidamente alguns valores em seu computador de bolso com o auxílio do software de reconhecimento de voz:
-- ...Dados gravitacionais do local de nascimento, em unidades g, zero, ponto, trinta e oito... Dados gravitacionais da Estação Internacional de Europa, em unidades g, zero, ponto, um-três-quatro... Dados gravitacionais da Base Estelar Chandrasekhara, em unidades g, nove, ponto, oito-zero-meia-meia-cinco...
Dados gravitacionais do transporte, em unidades g, ZERO.... Dados gravitacionais do Quinto Setor do Anel Orbital Nova-Terra, em unidade g, nove, ponto, oito-zero-meia-meia-cinco... Processe.
Terminou de falar a tempo de recomeçar a conversa com sua esposa:
--...Querida, estou introduzindo os dados gravitacionais no software de adaptação para
transferi-los ao controlador dos meus implantes cirúrgicos para compensação de
gravidade. Nascer em Marte, onde a gravidade é 38% da gravidade-oficial, nestas horas, é um problema... Estou a caminho de Nova-Terra, fui convocado a uma reunião de emergência com o Alto-Comando da Terra. Parece que convocaram gente de tudo quanto é lado. Eu não cheguei a lhe dizer ainda, mas o homem assassinado era um figurão
lá de baixo, o cara responsável pela Estação Amundsen-Scott, no Pólo Sul terrestre. Você deve se lembrar das evacuações em massa pra chegada dos militares e daquela confusão que começou por lá há uns seis anos e da qual ninguém soube mais nada depois. Ah, e tem mais, o tal figurão estava disfarçado dentro do
meu cruzador espacial. Pode imaginar isso? Foi morrer justo lá dentro e disfarçado, o desgraçado. Essas coisas só acontecem comigo, justo durante o
meu turno de comando no estaleiro...
Passou longos minutos em silêncio, de olhos fechados, apenas ouvindo as palavras que sua mulher lhe transmitia a mais de 60 milhões de quilômetros. O sorriso infantil que deixava escapar parecia revelar o que a voz dela lhe dizia. Disse mais alguma coisa em resposta, despediu-se e abriu os olhos. O pequeno
display de seu computador pessoal indicava o término do processamento e piscava incansavelmente, comunicando que os dados estavam prontos para serem transferidos.
O Coronel Odysseu Cydoniapulos, Primeiro-Imediato do Cruzador Espacial Centaurus, desenrolou um minúsculo cabo de fibra-ótica da parte lateral do computador, espetou-o profundamente em um quase invisível orifício em sua têmpora direita e falou em voz alta:
-- Transmitir dados e reprogramar os implantes cirúrgicos para compensação de gravidade.
Milhares de pontinhos luminosos coloridos iniciaram aquilo que parecia ser uma maratona do pequeno computador até a cabeça do homem, que apagou a luz e começou a cochilar.
Aquele poderia ser seu último momento de paz por muito tempo.
TO BE CONTINUED...
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Passagem
Antigo retrato
de um tempo completo.
A virtude narrada,
o extinto dialeto.
A crença calada
e o começo sem fim.
Instante esquecido
em sinais de nanquim.
A Dama perdida,
e as cartas marcadas:
o breve silêncio
de um Ás de espadas.
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Jack
Sk. |
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| 1º
de Dezembro de 2008.
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Paulo Francis
Paulo Francis foi, na minha opinião, um dos maiores cérebros de nossa época. Em seu livro
Certezas da Dúvida,
Paulo
faz críticas e observações sobre a ordem do mundo, que já naquela época, mostrava claros sintomas da epidemia que iria se alastrar por suas imaginárias fronteiras políticas. Vira-e-mexe eu releio alguns de seus textos, e sempre que eu fecho o livro, fico com a impressão de que muitas vezes a gente diz bobagem quando prega que nossos jovens vivem um momento totalmente diferente daquele em que viveram aqueles cuja juventude rolou nos anos 70 ou 80, e que exatamente por isso, o
front da juventude atual encara os valores desta forma crassa que não é novidade pra ninguém. A coisa não é bem assim.
Vivemos hoje em meio à sujeira porca que nossa irresponsabilidade produziu ontem da mesma maneira que viveremos amanhã entre toda a
excrescência que produzimos hoje com a política escrota que fazemos. É claro que atualmente as chances de alguém ser um cidadão realmente informado e consciente supera em muito as chances dessa proeza se fazer acontecer em uma terra sem Internet, TV por assinatura ou liberdade de expressão e que essas armas são fundamentais para que sejamos capazes de atenuar o efeito da bomba virulenta cujo pavio queima cada vez mais rápido sob nossos assustados traseiros. Mas o fato é que isso de nada nos adianta, já que a absoluta incapacidade de absorver todo esse potencial de forma proveitosa se faz notar cada vez mais entre as parcelas mais jovens da população.
Gente como Paulo Francis no abre os olhos para o perigo que há em acharmos que existe novidade em todo quebra-cabeça que termina de ser montado diante de nossas vistas neste novo começo de milênio, após décadas e décadas do jogo das grandes potências com o enorme
puzzle do qual fazemos parte sem nem ao menos percebermos. Ignorarmos a história do mundo em que vivemos é o caminho certo para que não sejamos capazes de colocá-lo nos eixos tão cedo, por mais força que sejamos capazes de fazer. Ignorarmos as causas é a maneira mais eficiente de ignorarmos as conseqüências da desastrosa política de interesses que afeta nossas vidas todas as manhãs.
É literalmente aceitarmos o papel de cego no tiroteio e ainda acreditarmos que haverá uma forma de escapar desta ileso.
Enquanto não abrirmos nossos olhos pra valer e decidirmos fazer alguma coisa, senão pelo mundo, ao menos por nós mesmos, estaremos inutilmente reclamando para a estátua de Zeus em um panteão de divindades muito mais suscetível às falhas e desejos humanos do que os adorados arquétipos da sabedoria grega.
E num mundo politeísta, onde ninguém fala a mesma língua e cada vez mais se preocupa apenas com o próprio rabo, eu sinceramente não consigo imaginar nada mais idiota.
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O Monstro
Ando com seis milhões de coisas pra
terminar. Meu trabalho está me engolindo
vivo, eu quase posso sentir meus músculos
desesperados cedendo aos sucos gástricos
desse monstro capitalista. Meu plano é
esperar o desgraçado achar que me venceu
e então explodir uma bomba dentro dele, o
que deverá acontecer até o final desta
semana, mais precisamente quinta-feira.
Isso feito as coisas tenderão a se
acalmar e eu me dedicarei a placidamente
juntar restos de órgãos estilhaçados
dentro de um barril.
Até lá vocês podem acompanhar a
realidade brasileira através das novelas
da Globo.
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Toda a
proposta deste blog está resumida em seu título e
subtítulo: "Blood Pack
- sobre a arte de reciclar seu
próprio sangue". Se você não entendeu o
que isso significa, é provável que não entenda mais
nada do que acontece por aqui. Aliás, se você não
entendeu isso, é bastante provável também que nem
esteja lendo esta nota, afinal de contas, quem lê as
letras miúdas nos contratos, não é mesmo? |
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Blood
Pack é escrito e produzido por
Jack Skellington. Você pode reproduzir os meus textos
onde quiser, mas cite a fonte. Se você gostou do que
leu aqui, escreva um e-mail
comentando, pra gente conversar. Se não gostou, nem perca
tempo tentando me azucrinar, pois eu não vou estar nem
aí pra tua crítica. Se curtiu o blog, indique-o para os
seus inimigos. Se não curtiu, vá tomar no cu e não volte
mais aqui, que você ganha mais. |
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Since September 17, 2007
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