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O
Elogio da Madrasta
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"Seu marido havia levantado a
camisola e lhe acariciava as
nádegas, num movimento circular
e metódico, enquanto beijava os
peitos. Ouviu-o murmurar que a
amava, sussurrar meigamente que
com ela tinha começado para ele
a verdadeira vida. Dona Lucrecia
beijou seu pescoço e mordiscou
os mamilos até ouvi-lo gemer;
depois, lambeu lentamente
aqueles ninhos que tanto o
exaltavam e que dom Rigoberto
tinha lavado e perfumado
cuidadosamente para ela antes de
ir se deitar: as axilas. Ouviu-o
ronronar como um gato manhoso,
contorcendo-se sob o seu corpo.
Apressadas, suas mãos separavam
as pernas de dona Lucrecia com
uma espécie de exasperação.
Colocaram-na de cócoras sobre
ele, ajeitaram-na, abriramna.
Ela gemeu, dolorida e gozosa,
enquanto, num redemoinho
confuso, divisava uma imagem de
São Sebastião flechado,
crucificado e empalado. Tinha a
sensação de ter levado uma
chifrada no centro do coração.
Não se conteve mais. Com os
olhos entrecerrados, as mãos
atrás da cabeça, avançando os
seios, cavalgou naquele potro de
amor que se balançava com ela,
ao seu compasso, ruminando
palavras que mal podia
articular, até sentir que ia
desfalecer."
Trecho de O Elogio da
Madrasta, de Mário Vargas
Llosa,
Editora Alfaguara Brasil,
2009 |
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Brian
Dettmer
Brian Dettmer, em sua segunda
exposição individual na Galeria Aron
Packer, transformou mapas, atlas,
livros, enciclopédias e fitas
cassetes descartados em obras de
arte. A forma como o material é
trabalhado confere ao conjunto uma
aura quase obssessivo compulsiva,
tal é o rigor empregado pelo artista
no que se refere ao conjunto de
detalhes, cuidadosamente
manipulados.
O trabalho de Dettmer cria, dessa forma, novas relações
e significados, que emergem a partir
da alteração de textos e imagens,
através de uma subtração escultural
que deixam impressas no observador
um pouco de seus próprios
sentimentos.
Você pode conhecer um pouco mais da obra de Dettmer
aqui e
aqui. |
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Trabalho de Brian Dettmer,
exposto na Galeria Aron
Packer |
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a
quem interessar possa
Parece que eu
fui de vez, mas eu não fui não. Excesso de
trabalho, stress, surtos psicóticos,
episódios dissociativos e gente louca saindo
pelo ladrão, afinal de contas existem mais
pessoas malucas por metro quadrado neste
mundo do que metro quadrado. O fato é que
ando com muitos problemas a resolver e
embora não pareça, um blog exige um tempo da
gente, mesmo aqueles que, como este, quase
ninguém lê.
Então é isso: em breve, este abscesso
digital ensanguentado e purulento volta ao
normal (se é que a gente pode chamar isto
aqui de normal).
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Brianna's
Nerd Life
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Psicanalizando
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"Finalmente, a pulsão de morte
pode permanecer ‘no organismo’
ligada à libido na forma de um
masoquismo primário, chamado por
Freud de masoquismo erógeno. A
concepção de um masoquismo
primário não encontra
equivalente na primeira teoria
das pulsões, a menos que
retomemos a noção de
co-excitação sexual dos ‘Três
Ensaios’. Freud diz ali que
qualquer emoção como a angústia,
o medo ou mesmo a dor, pode
produzir excitação sexual. Em
‘Pulsões e suas Vicissitudes’,
ele escreve que ‘infligir a dor
(ao objeto) não desempenha
nenhum papel nos objetivos
originariamente visados pela
pulsão. Para a criança sádica,
infligir dor... não é o que ela
visa’ (Freud, 1915). É somente
depois de experimentada em si
mesma a excitação sexual ligada
à dor -- por co-excitação --,
quer dizer a satisfação
masoquista, que pode infligir
dor ao outro, agredir, fazer
mal, passa a ser um objetivo
pulsional. Laplanche nota, com
razão, que o primeiro tempo
sexual é o masoquista. O tempo
propriamente sádico supõe um
tempo sexual masoquista
anterior, de maneira que já
existe neste texto, ainda no
quadro da primeira teoria das
pulsões, há a noção de um
masoquismo primário.
Confesso, pois, que não consigo ver o que o conceito de uma
pulsão de destruição acrescenta
para a elucidação do problema
que nos ocupa, qual seja o da
origem, da natureza e dos
destinos do ódio. Quanto à
origem e á natureza do ódio,
perece-me bem mais fecunda a
teoria anterior, que põe em
relação ódio e narcisismo.
Quanto aos destinos do ódio, não
há duvidas de que, nos textos
posteriores a ‘Além do Princípio
de Prazer’, há uma nítida
consolidação do espaço crescente
que vinha sendo ocupado pelo
sadismo e pelo masoquismo na
metapsicologia freudiana. O
sadismo e o masoquismo perecem
estar de alguma maneira
presentes, desde então, em todas
as modalidades da libido. Freud
afirma em 1924, que o ‘o
masoquismo erógeno toma parte em
todas as fases do
desenvolvimento da libido e
empresta delas a sucessão de
roupas psíquicas que reveste’:
‘a angústia de ser devorado’
ligada à organização oral, o
‘desejo de apanhar’ à fase
sádico-anal e até mesmo as
fantasias de castração da fase
fálica comportando uma
satisfação masoquista."
Trecho de Fundamentos de uma
clínica freudiana,
de Luís Carlos Menezes,
São Paulo, Casa do Psicólogo,
2001 |
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cerberus
cerebrum

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amortecedor
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Jack Sk. |
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A
doença de van Gogh
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"Noite de 23 de dezembro. Por
volta das onze e meia, Paul
Gauguin resolve sair da 'Casa
Amarela' e caminhar pelas ruas
frias e desertas de Artes.
Deveria estar querendo escapar
um pouco da pressão exercida por
van Gogh com suas constantes e
abruptas alterações de humor.
Paul Gauguin percebe passos
atrás de si, vira-se assusta-se
com a visão de um van Gogh
transtornado e segurando uma
navalha. Ao ouvir o grito do
amigo, van Gogh gira sobre si
mesmo, sai correndo e some na
escuridão.
Este incidente é apenas o início
de uma noite que beira a
tragédia. Van Gogh vai ao
prostíbulo onde mora Rachel. Ela
logo percebe que a orelha
esquerda do pintor está
sangrando. Ele entrega um lenço
ensangüentado à prostituta e lhe
pede para guardá-lo com tradução
da notícia 'No último domingo às
11:30h da noite Vicent van Gogh,
pintor nascido na Holanda,
entrou na casa de tolerância
nº1, à procura de uma tal de
Rachel e lhe entregou sua orelha
dizendo -- guarde isto
cuidadosamente -- após o que
saiu em disparada. Informada do
ocorrido, que só poderia ter
sido praticado por um alienado,
a polícia foi a sua casa na
manhã seguinte e o encontro no
seu leito quase sem sinais de
vida. O infeliz foi em seguida
admitido de urgência no
hospício.'"
Trecho de As
Belas Artes da Medicina,
de Armando Bezerra,
A doença de van Gogh
Mais do livro AQUI |
|
Maiakóvski
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Tweetadas
V
|
Saramago
|
Poema à boca fechada
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e
amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de
outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas
mortas,
Ácidas mágoas em limos
transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes
tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as
dizer merecem,
Palavras que não digam quanto
sei
Neste retiro em que me não
conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só
lamas,
Nem só animais bóiam, mortos,
medos,
Túrgidos frutos em cachos se
entrelaçam
No negro poço de onde sobem
dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer
tudo.
José Saramago
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Orelha
|
A
Orelha de Carlos
Drummond de Andrade
|
Poema-orelha
Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta inda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.
Carlos Drummond de Andrade
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A
Boca de Carlos
Drummond de Andrade
|
Boca
Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.
Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.
Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.
Carlos Drummond de Andrade
|
|
Boca
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Olho
|
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Adolfo
Montejo Navas

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Pretérito
Perfeito
Nasceu,
chorou, cresceu, berrou, falou, comeu,
andou, caiu, sofreu, amou, subiu, desceu, dormiu, fodeu, pariu, fumou,
bebeu. Deitou, morreu.
|
Tweetadas
IV
Alienado, eu? Rá! Nos últimos
anos venho acompanhando a
realidade mundial diaria-
mente, através dos seriados da
TV por Assinatura.
6:53 PM
Apr 13th from web
Eu sei onde está a ilha do Lost,
quem entrou no lugar do Grissom
no CSI e quem o House tá
comendo. PQP, como eu sou bem
informado.
6:52 PM
Apr 13th from web
Rapaz, minhas últimas Páscoas
têm sido literalmente um chute
nos ovos.
6:22 PM
Apr 13th from web
Pra ser sincero, a pior coisa
que há no futebol é que existe
gente que gosta dele.
6:22 PM
Apr 12th from web
O problema do ser humano é
acreditar apenas nas coisas que
lhe convém.
10:27
PM Apr 11th from web
Eu acredito em Deus. Deus é que
não acredita em mim.
5:19 PM
Apr 11th from web
IN GOD WE TRUST
5:13 PM
Apr 11th from web |
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enquanto
isso...
E então, numa bela manhã, me dou conta de
que este obscuro sítio ensan-
guentado passou a receber dezenas de visitas
do outro lado do Atlântico. É bacana saber
que existe gente de tão longe interessada em
ler as patacoadas que eu escrevo. E o
responsável pela parada foi o caro João
Branco, do blog cabo-verdiano
Café Margoso, com
este post.
Esse é o tipo de coisa que não me deixa
esquecer de que o velho
McLuhan sempre esteve certo quando se
referiu ao mundo como uma
Aldeia Global, ainda nos velhos anos 60.
Doido isso.
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O
Cobrador
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"Amarrei as mãos dele atrás das
costas com uma corda que eu
levava. Depois amarrei os pés.
Ajoelha, eu disse.
Ele ajoelhou.
Os faróis do carro iluminavam o seu corpo. Ajoelhei-me ao seu
lado, tirei a gravata borboleta,
dobrei o colarinho, deixando seu
pescoço à mostra.
Curva a cabeça, mandei.
Ele curvou. Levantei alto o facão, seguro nas duas mãos; vi
as estrelas no céu, a noite
imensa, o firmamento infinito e
desci o facão, estrela de aço,
com toda minha força, bem no
meio do pescoço dele.
A cabeça não caiu e ele tentou levantar-se, se debatendo como
se fosse uma galinha tonta nas
mãos de uma cozinheira
incompetente. Dei-lhe outro
golpe e mais outro e outro e a
cabeça não rolava. Ele tinha
desmaiado ou morrido com a porra
da cabeça presa no pescoço.
Botei o corpo sobre o páralama
do carro. O pescoço ficou numa
boa posição. Concentrei-me como
um atleta que vai dar um salto
mortal. Dessa vez, enquanto o
facão fazia seu curto percurso
mutilante zunindo fendendo o ar,
eu sabia que ia conseguir o que
queria. Brock! a cabeça saiu
rolando pela areia. Ergui alto o
alfanje e recitei: Salve o
Cobrador! Dei um grito alto que
não era nenhuma palavra, era um
uivo comprido e forte, para que
todos os bichos tremessem e
saíssem da frente. Onde eu passo
o asfalto derrete."
Trecho de O Cobrador,
de Rubem Fonseca
Editora Nova Fronteira, Rio de
Janeiro, 1979 |
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Sobre
meninos, castigos, arte e blasfêmias
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Marte Castigando Cupido
Bartolomeo Manfredi, 1605-1610
Art Institute of Chicago, EUA |
A Virgem Espancando o Menino
Jesus Diante
de Três Testemunhas - A.B.[1],
P.E.[2]
e o Artista[3]
Max Ernst, 1928 |
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[1] André Breton
[2] Paul Eluard [3]
Marx Ernst |
Duas obras
interessantes pra gente pensar a respeito,
não acham?
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Tweetadas
III
God is dead. Punk's not dead.
Talvez Deus devesse ser mais
punk, sei lá.
2:12 PM
Apr 10th from web
DEUS É FIEL - Mas a questão é: a
quem?
6:13 PM
Apr 9th from web
"Deus ressuscitou a este Jesus,
do que todos nós somos
testemunhas" Atos dos Apóstolos
2:32 - Hum. Então tá então.
11:53
AM Apr 9th from web
Até mesmo num Estado
anarco-primitivista as fofocas
se baseiam num julgamento moral.
8:41 PM
Apr 8th from web
Iniciamos, neste momento, a
contagem regressiva para o
colapso no sistema mundial de
telecomunicações.
1:18 PM
Apr 8th from web |
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Pietá

Pietá, de
Paul Fryer, 2007
Waxwork, wooden chair, human hair, linen,
hawthorn
Em exposição na Catedral de Gap, França,
2009
Curadoria de Monsenhor Jean-Michel Di Falco,
bispo de Gap e de Embrun
|
A
Morta, de Guy de Maupassant
|
"Quando a noite ficou escura,
bem escura, deixei o meu abrigo
e comecei a caminhar de
mansinho, com passos lentos e
surdos, por essa terra repleta
de mortos.
Vaguei durante muito, muito tempo, não a encontrava. Braços
estendidos, olhos abertos,
esbarrando nos túmulos com as
mãos, com os pés, com os
joelhos, com o peito, e até com
a cabeça, eu vagava sem
encontrá-la. Tocava, tateava,
como um cego que procura o
caminho, apalpava pedras,
cruzes, grades de ferro, coroas
de vidro, coroas de flores
murchas! Lia nomes com os dedos,
passando-os sobre as letras. Que
noite! Não a encontrava!
Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível,
nesses caminhos estreitos entre
duas filas de túmulos! Túmulos!
Túmulos! Túmulos. Sempre
túmulos! À direita, à esquerda,
à frente, à minha volta, por
toda parte, túmulos! Sentei-me
num deles, pois não podia mais
caminhar, de tal forma meus
joelhos se dobravam. Ouvia meu
coração bater! E também ouvia
outra coisa! O quê? Um rumor
confuso, indefinível! Viria esse
ruído do meu cérebro desvairado,
da noite impenetrável, ou da
terra misteriosa, da terra
semeada de cadáveres humanos?
Olhei à minha volta!
Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de
terror, alucinado de pavor,
prestes a gritar, prestes a
morrer.
E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde
estava sentado se movia.
Realmente ela se movia, como se
a estivessem levantando com um
salto, precipitei-me para o
túmulo vizinho e vi, sim, vi
erguer-se verticalmente a laje
que acabara de deixar; e o morto
apareceu, um esqueleto nu que
empurrava a lápide com as costas
encurvadas. Eu via, via muito
bem, embora a escuridão fosse
profunda. Pude ler sobre a cruz:
'Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinquenta e um anos de
idade. Amava os seus, foi
honesto e bom, e morreu na paz
do Senhor.'
O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo.
Depois, apanhou uma pedra no
chão, uma pedrinha pontiaguda e
começou a raspar cuidadosamente
o que lá estava. Apagou tudo,
lentamente, contemplando com
seus olhos vazios o lugar onde
ainda há pouco existiam letras
gravadas; e, com a ponta do osso
que fora seu indicador, escrever
com letras luminosas, como essas
linhas que traçamos com a ponta
de um fósforo:
'Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinquenta e um anos de
idade. Apressou com maus tratos
a morte do pai de quem desejava
herdar, torturou a mulher,
atormentou os filhos, enganou os
vizinhos, roubou sempre que pode
e morreu miseravelmente.'
Quando acabou de escrever o morto contemplou sua obra,
imóvel. E, voltando-me, notei
que todos os túmulos estavam
abertos, que todos os cadáveres
os tinham abandonado, que todos
tinham apagado as mentiras
inscritas pelos parentes na
pedra funerária, para aí
restabelecerem a verdade.
E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes,
vingativos, desonestos,
hipócritas, mentirosos,
pérfidos, caluniadores,
invejosos, que tinham roubado,
enganado, cometido todos os atos
vergonhosos, abomináveis, esses
bons pais, essas esposas fiéis,
esses filhos devotados, essas
moças castas, esses comerciantes
probos, esses homens e mulheres
ditos irrepreensíveis.
Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada
eterna, a cruel, terrível e
santa verdade que todo mundo
ignora ou finge ignorar nesta
Terra.
Imaginei que também ela devia ter escrito a verdade no seu
túmulo. E agora já sem medo,
correndo por entre os caixões
entreabertos, por entre os
cadáveres, por entre os
esqueletos, fui em sua direção,
certo de que logo a encontraria.
Reconheci-a de longe, sem ver o rosto envolto no sudário.
E sobre a cruz de mármore onde há pouco lera: 'Ela amou, foi
amada, e morreu', divisei:
'Tendo saído, um dia, para enganar seu amante, resfriou-se sob a
chuva, e morreu.'
Parece que me encontraram inanimado, ao nascer do dia, junto
a uma sepultura."
Trecho de A Morta,
de Guy de Maupassant, 1887 |
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Josh
Wisdumb
Self Portrait, de
Josh Wisdumb
Mixed Media, Width 3.16′ Height 4.75′
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O
Manyōshū do Noviço Mansei
|
O que faz um psicótico-fetichista-bipolar em
uma interminável tarde ociosa de
Quinta-Feira Santa? O que faz um pobre e
solitário deus pagão em um calmo e nublado
final de feria V in Coena Domini?
Sim, ele começa a ocupar a mente com coisas
sem noção para evitar que seu cérebro rompa
com a realidade e que ele resolva sair
dirigindo por aí pelado e estrague o final da
Quaresma dos mais ortodoxos.
Por isso, antes que iniciem-se as missas
vespertinas e dê-se início o Tríduo Pascal
por este Brasilzão véio sem portêra, segue
uma singela tradução livre que acabo de
fazer de um trecho do Manyōshū*,
escrito por
Sami Mansei, sacerdote budista e velho poeta
noviço que viveu no Japão dos anos 720dC, a
mesma época em que o príncipe Tonerinomiko
ordenou a compilação do Nihonshoki, o
segundo livro mais antigo de história do
Japão. |
|
Poema 352 da coletânea japonesa
Manyōshū, do Sacerdote Budista Sami
Mansei (720dC),
traduzido por
Jack Sk. |
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|
Viver dentro deste mundo
a que isso comparar?
A uma canoa
que parte ao romper do
dia,
sem deixar sinais |
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Sami
Mansei |
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|
*Para a
tradução, foram utilizadas três
versões do mesmo trecho: a versão
clássica, escrita apenas em Kanji (
世間乎 / 何物尓将譬 / 旦開 / 榜去師船之 / 跡無如 ) e
duas versões adaptadas para o
japonês, que alternam Kanji e
Hiragana ( 世間を / 何に譬へむ / 朝開き /
漕ぎ去にし船の / 跡なきごとし ) e ( 世の中を /
何にたとえむ / 朝ぼらけ / 漕ぎ行く舟の / 跡の白波 ). A
versão romanizada poderia ser
escrita Yo no naka o / nani-ni
tatoemu / asabiraki / kogiinishi
fune no / ato naki gotoshi. Entre as
duas versões japonesas, me chamam a
atenção as substituições, na segunda
versão, dos "sinônimos" em Kanji 間 [entre], por 中 [entre, dentro] e do Kanji 船
[navio, veleiro] por 舟 [balsa,
barco a remo], o que explica minha
opção por utilizar os termos "dentro
deste" e "canoa". O Kanji 跡 [pista,
rastro] seguido por 無 [não,
sem] --
literalmente [pista/rastro não/sem] -- me
levou a optar pela expressão "sem
deixar sinais". Apesar da existência
de três versões do mesmo texto ter
me facilitado muito o processo de
tradução, especialmente para
entender os tempos verbais (ex. o
sufixo し - shi representando o
tempo passado em kogiinishi [de kogiinu
-
pres.
viajar, deixar, partir, abandonar],
que por sua vez refere-se ao
substantivo que o segue em uma
espécie de adjetivação),
honestamente não sei o motivo pelo
qual há duas adaptações diferentes
envolvendo o sistema Kanji-Hiragana...
|
|
Um
cadáver de poeta
|
Levem ao túmulo aquele que
parece um cadáver!
Tu não pesaste sobre a terra: a
terra te seja leve!
L. UHLAND
De tanta inspiração e tanta
vida,
Que os nervos convulsivos
inflamava
E ardia sem conforto...
O que resta? — uma sombra
esvaecida,
Um triste que sem mãe
agonizava...
— Resta um poeta morto!
Morrer! E resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões! no
peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida
impura
Onde arquejou de fome... sem um
leito!
Em treva e solidão!
Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a
eternidade
Na larga fronte escrita...
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!
Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um
sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a
caveira
Que um lobo devorou!...
Trecho inicial da obra Um
cadáver de poeta
de Álvares de Azevedo
(Posteriormente agrupado em A
lira dos vinte anos) |
|
Tweetadas
II
Quanto mais eu rezo, mais
assombrações me aparecem: eu
sabia que aquela idéia de virar
ateu ia acabar em merda.
3:54 PM
Apr 6th from web
UOL: "Ronaldo estuda ficar
careca para os jogos das
semifinais do Paulista" - Jack
Sk: Estudar jogar bola, que é
bom, vagabundo não quer...
3:17 PM
Apr 6th from web
O Twitter nada mais é do que um
lugar onde a gente pode escrever
aquelas besteiras que antes
escrevia no lugar do nick do
MSN.
2:55 PM
Apr 6th from web
A felicidade é para os fracos.
2:52 PM
Apr 6th from web
um homem com uma dor / é muito
mais elegante / caminha assim de
lado / como se chegando atrasado
/ andasse mais adiante -
Leminski
2:30 PM
Apr 6th from web |
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Alexis
Anne
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|
Orchid Hand - Crimson
by Alexis Anne
Collage on vintage paper
14 x 16" |
Skull Blossoms
by Alexis Anne
Print - edition of 100
10" x 7" |
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In
Flight
by Alexis Anne
Collage on paper
10 x 12" |
Butterflies Up The Spine
by Alexis Anne
Print - edition of 20
9.5 x 11" |
Com a intenção de revelar o lado negro de um
mundo que considera brilhante,
Alexis Anne elabora meticulosas colagens
a partir de livros que vem colecionando há
vários anos, sempre visando obter resultados
de encaixes cada vez mais perfeitos. A
artista prefere não enxergar seus trabalhos
como simples colagens, uma vez que acredita
já existir um conceito geral preestabelecido
e bastante limitado a respeito do que
significa uma colagem. Para ela, sua obra
transcende esse significado, sendo uma
espécie de amálgama capaz de representar sua
essência pessoal.
Curtiu a arte de
Alexis Anne? Visite
o site dela e conheça outros trabalhos.
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Obscenidades
gaúchas
Velha buceta gaudéria
Com rasgão de meia légua
estás em fase de trégua
no desuso, já gosmenta
chocha, feia e pelanquenta
mal serves para mijar
ou quando muito te olhar
de longe, óh! fedorenta.
Quem te viu toda dengosa
molhadinha após a liça
bebendo um caldo de piça
ao cessar o vai-e-vem
por certo que hoje tem
lembranças desse evento
pois na cama ou ao relento
tu fodias muito bem.
Eras uma cancela aberta
sempre esperando uma chonga
fina, grossa, curta ou longa
de qualquer jeito servia
o tempo em nada influia
pois até quando sangrando
sempre estavas planejando
dar várias fodas por dia.
Tabaca, velha tabaca,
que agora está toda torta
cheia de teias na porta
enrugada e com desgaste
estás virada num traste
que agora ninguém mais monta
mas sei que perdeste a conta
dos caralhos que abrigaste.
Tabaca o peso dos anos
traduzem-se nessa racha
nessa tua aparência laxa
em não prestares pra nada
em tua dona hoje pelada
não despertar mais anseios
em já nem teres penteios
protegendo tua entrada.
Hoje murcha e abandonada
estás de beiços caídos
recordando os tempos idos
tuas trepadas, tua raça
consolando-se com a graça
de ver tua missão cumprida
pois tu já fostes fudida
por todos machos da praça.
Sei óh! velha buceta
que estás chegando ao fim
mas eu quero mesmo assim
perpetuar o que assisti
registrando agora e aqui
o meu respeito profundo
pois não há macho no mundo
que possa viver sem ti.
Autor desconhecido
Poesia do Folclore Gaúcho
in
www.paginadogaucho.com.br |
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Tweetadas
I
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Em
face dos últimos acontecimentos
Em face dos últimos
acontecimentos
Oh!
sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
Carlos Drummond de Andrade |
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Bibliomania
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Nada como um domingo de nerd: almoçar no
restaurante japonês e depois tomar café na
Livraria Cultura, pra poder deixar uma
córnea no caixa como pagamento por alguns
livros novos:
Numerati, de Stephen Baker;
A prova de Gödel, de Ernest Nagel e
James Roy Newman e
Thinkers of the jungle, de Gerd
Schuster, Willie Smits e Jay Ullal. O foda é
que quanto mais deprimido eu me sinto, mais
livros eu compro e só não é pior porque eu
leio todos. |
Mas eu ainda perco esse vício.
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Rachel
Rebibo
A
fotógrafa
Rachel Rebibo revela em seu trabalho a
atenção para o detalhe, o encontro com o
mundano e a beleza crua da vulgaridade.
Rachel acredita que muitas vezes é o
grotesco e o desconfortável que nos torna
verdadeira-
mente seres humanos.
E eu até concordo.
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pensamento
Só pra constar: a vida da gente é
praticamente toda formada por trechos e
pedaços daquilo que mais nos interessa e
atrai na vida dos outros. Somos mais ou
menos o resultado de um mosaico inconsciente
elaborado a partir das partes desconexas de
tudo aquilo que conhecemos. Somos a reunião
dos fragmentos de milhares de vasos
quebrados.
Por isso é tão fácil se transformar num
louco.
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Alegres
memórias de um cadáver
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"Na passagem da vida para a
morte -- terei passado mesmo? --
houve para mim uma grande
mudança de ótica. Vivo, o
sentimento mais freqüente em
relação aos livros era o de uma
grande inutilidade. Eu era tão
inútil quanto os livros.
Levantava cedo, tomava café,
ouvia Maria falar na falta de
dinheiro, na conta do armazém,
na vizinha que tivera um filho
ou fora abandonada pelo marido.
Corria para o ônibus e era
sempre o primeiro a chegar na
biblioteca. E ali me escondia.
Lá fora, o barulho. Aqui, eu
debruçado sobre os livros.
Enviar para a restauração,
classificar, escrever para as
editoras, dias e dias a mesma
rotina. Quem afinal lia aqueles
livros? [...] E agora, que tudo
mudou" O livro é o silêncio -- o
silêncio da memória, o fervilhar
de promessas não realizadas. Foi
isso o que entendi naquela
madrugada, pouco antes do guarda
noturno me perseguir aos tiros,
Surgindo no meio da noite,
embrulhado no guarda-pó branco e
com aquele ridículo boné na
cabeça, eu era alguma coisa
proibida que fugira do silêncio
de formol ao qual se condenam as
coisas mortas. Como os livros."
trecho de Alegres memórias de
um cadáver,
de Roberto Gomes, Criar Edições,
págs. 72 e 73 |
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Xavier
da Cunha
Descrição do Quarto do Autor
Pedida por uma Senhora.
De
escarros a parede matizada,
Sobre a mesa bastante papel
velho,
Noutra parte sem aço antigo
espelho,
E um tinteiro, que só vê tinta
aguada;
Do tecto imensa teia pendurada,
Duas cadeiras já sem aparelho,
Imundície que dá pelo joelho,
E a pequena janela esburacada;
Quatro livros franceses
emprestados
E um estreito lençol de cor mui
preta
Aonde enrosco os membros
descarnados;
De mordedoras pulgas tropa
infecta,
Percevejos cruéis, ratos
malvados:
Aqui tendes o quarto de um
poeta.
Xavier da Cunha |
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Most
Evil
Pontuação atual no Índice da Maldade do Dr.
Stone: 8
"Pessoa não-psicopata com raiva latente
e que mata quando tem essa raiva inflamada."
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.Posts
Relacionados:
O Índice de Maldade |
Era
uma vez...
Era uma vez um
país chamado República do Texas, que havia
se tornado independente do México em 1836 e
que votou, em 1837, sua anexação voluntária
ao então Estados Unidos da América. Apesar
de várias tentativas texanas terem sido
rejeitadas pelos americanos, que queriam
evitar uma possível guerra contra o México,
o fato é que o ano de 1845 assistiu à
anexação daquele que seria o 28º estado dos
EUA.
Graças a isso, também em 1845, o ditador mexicano Antonio
López de Santa Anna, que já alertara aos
americanos para que o ato de anexação
corresponderia a uma declaração de guerra
por parte dos Estados Unidos, rompe relações
diplomáticas com o vizinho e conduz o mal
estar à Guerra Mexicano-Americana,
que só seria encerrada em 1848 com a
assinatura do Tratado de Guadalupe
Hidalgo. De acordo com a ratificação,
caberia aos Estados Unidos pagar aos
mexicanos a quantia de US$15.000.000,00 -- além
de assumir outros US$3.500.000,00 em dívidas
mexicanas a cidadãos america-
nos -- em troca da
cessão por parte do México dos atuais
estados de Nevada, Califórnia e Utah e parte
dos atuais estados do Colorado, Wyoming,
Arizona e Novo México. Mais tarde o México
cederia o restante dos territórios do
Arizona e do Novo México naquela que ficou
conhecida como Compra Gadsen.
Em 1867 foi a vez dos russos venderem um território aos
americanos: vendo a economia russa
nitidamente debilitada graças à Guerra da
Criméia, que vigorara de 1853 a 1856, o
então Secretário de Estado norte-emericano
propôs a aquisição do Alasca, caminhando na
contramão da opinião pública, que acreditava
que o futuro maior estado americano era, na
verdade, um deserto gelado e inútil. Apesar
da oposição à ideia, o Alasca foi comprado
por US$7.200.000,00, como havia sido feito
no caso da Louisiana, comprada da França de
Napoleão em 1803 por US$15.000.000,00 e da
Flórida, comprada dos espanhóis pelo governo
Monroe em 1819 por US$5.000.000,00
(tornando-a o 27º estado americano,
antecedendo ordinalmente ao Texas), separada
em 1861 para unir-se aos Estados
Confederados da América e sendo readmitida
em 1865 após a derrota dos Confederados na
Guerra da Secessão. Os Estados Unidos
da América, que apesar dos fatos e do velho
princípio "América para os americanos",
imposto pelo presidente James Monroe em 1823
através da Doutrina Monroe, vinha
demonstrando uma grande tendência ao
pacifismo e era reconhecidamente uma nação
que sempre optara pela diplomacia ao invés
da possibilidade de intervenções militares
-- pelo menos quando não se tratava dos
povos nativos.
No entanto, em 1898, os caras decidiram que era hora de
guerrear com a Espanha, tendo conseguido,
com isso, estabelecer poderes fora do
continen- te, ocupando Cuba e sendo
beneficiários da cessão de Porto Rico, de
Guam e das Filipinas.
Mas qual foi o cenário que acompanhou a essa mudança na
política de relações internacionais
americana?
Bem, foi mais ou menos nessa época que eles resolveram
acreditar na superioridade branca e
anglo-saxônica. Convencidos de serem a
última Coca-Cola do deserto, começaram pela
primeira vez a adorar o próprio umbigo e a
enxergarem-se como os escolhidos para
a missão de substituir o controle britânico
que submetia aos bárbaros. Nesse mesmo
momento, por uma
coincidência do destino, o
colonialismo inglês começava a dar claros
sinais de declínio na África do Sul.
Acompanhando essa atmosfera da superioridade política
americana, várias seitas protestantes
passaram a se considerar como representantes
da religião do futuro, responsáveis pela
evocação da fiel democracia na sociedade
norte-americana, conforme foi exposto pelo
pastor Josiah Strong em Nova Pátria,
uma obra de grande tiragem em 1886.
Numa rápida seqüência, obras de tiragens igualmente
respeitáveis nos anos 1890, foram veículos
das fortes declarações de Alfred Mahan,
oficial da marinha que pregou a necessidade
visceral de os Estados Unidos, então ricos e
imensos, investirem no poder marítimo,
revelando que vence sempre aquele que domina
o mar, e que as expansões americanas
deveriam dar-se não somente pela prioridade
das colônias a serem conquistadas, mas
principal- mente pela imposição e ocupação
de bases navais a situarem-se ao longo das
rotas comerciais. As idéias de Mahan então
tornaram-se especialmente objeto de respeito
e importância quando passaram a ser adotadas
por homens poderosos como Henry Cabot Lodge
e Theodore Roosevelt, nomeado subsecretário
da Marinha em 1897, antes de se tornar
presidente dos Estados Unidos. Foi nesse
momento em que o pesado ovo do imperialismo
americano começou a ser chocado pra valer,
numa ácida preparação para o nascimento do
gigantesco pinto que viria a ciscar
literalmente até no cu do mundo.
O mais novo capítulo dessa história já começou a ser escrito.
Aguardemos os resultados da
grande fábula federalista, pra sabermos
se o pinto aquieta ou agita de vez.
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Twitter
Eu até agora
não vi nada de estimulante no tal do
Twitter, mas como um monte de gente
entrou numas de usá-lo, eu resolvi dar uma
de maria-vai-com-as-outras e também abrir um espaço
por lá:

https://twitter.com/bloodpack
É como diz o velho ditado:
"Coma merda,
afinal de contas um trilhão de moscas não
podem estar erradas."
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De
volta do abismo
Eis que as
trevas vomita este cidadão que vos escreve
após nove longos dias de indigestão, com um
novo layout cheio de detalhes idiotas pra
quem gosta de observar detalhes idiotas.
Assim como como o último template, este
também segue a linha grunge design,
que se caracteriza por um desenho sujo,
rabiscado e com aparência de rascunho,
naquele estilão básico de quem fez tudo nas
coxas. Apesar disso, por mais absurdo que
pareça, um design com aparência de relaxo
demanda um trampo razoável pra ser feito,
primeiro porque tudo o que você realmente
faz de qualquer jeito fica uma bosta de
verdade e segundo porque simular uma
porcaria mal feita -- mas que soe bacana --
obriga o seu cérebro a criar padrões onde
naturalmente não deveria haver nenhum. Além
disso, descobri que meus layouts, que
sempre foram desenvolvidos para o Firefox,
costumavam ser exibidos com erros no IE (que
é um lixo de navegador) o que me fez entrar
numa vibe meio nerd de acertar o HTML para
que o layout atual mantenha a mesma
aparência no IE e no Firefox, mas fiquei com
preguiça de testar no Opera e no Chrome.
Na minha opinião, esta linha de design é
mais ou menos como pintar uma abstração:
todo mundo que olha acha que qualquer
criança conseguiria fazer melhor, mas todo
mundo que pinta sabe que se isso fosse
verdade todo mundo era um
Kandinsky ou um
Mondrian.
UPDATE: Acabo de testar no Chrome. Parece que funciona por lá também.
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Toda a proposta deste blog está resumida em seu
título e subtítulo: "Blood
Pack - sobre a arte
de reciclar seu próprio sangue". Se você
não entendeu o que isso significa, é provável
que não entenda mais nada do que acontece por
aqui. Aliás, se você não entendeu isso, é
bastante provável também que nem esteja lendo
esta nota, afinal de contas, quem lê as letras
miúdas nos contratos, não é mesmo?
Blood Pack
é escrito e produzido por Jack Skellington. Você
pode reproduzir os meus textos onde quiser, mas
cite a fonte. Se você gostou do que leu aqui,
escreva um
e-mail
comentando, pra gente conversar. Se não gostou,
nem perca tempo tentando me azucrinar, pois eu
não vou estar nem aí pra tua crítica. Se curtiu
o blog, indique-o para os seus inimigos. Se não
curtiu, vá tomar no cu e não volte mais aqui,
que você ganha mais. |
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Since September 17, 2007
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